O Porto Que Tinha Mudado

A Viagem da Seda de Macau a Nagasáqui em 1626 e o Porto Que Pacheco Encontrou

Quando as seis galeotas de Luís Paes Pacheco contornaram os promontórios e entraram no porto de Nagasáqui, no verão de 1626, ele olhava para uma cidade que julgava conhecer e que nunca vira de facto.

Comprara o direito de ali estar quatro anos antes. Por volta de 1622, em Macau, Pacheco entregara uma soma avultada à Cidade de Malaca, não por um pedaço de terra, não por um edifício, mas por uma rota: os direitos da Capitania da Viagem do Japão, a Capitania-mór da Viagem do Japão, um dos privilégios comerciais mais lucrativos de todo o Estado da Índia português. A Coroa costumava conceder estas capitanias a instituições coloniais meritórias, que por sua vez as vendiam a quem conseguisse reunir o capital. Pacheco não era fidalgo. Era um viúvo radicado em Macau, com pouco mais de cinquenta anos, que passara uma vida de trabalho no comércio asiático e acumulara por fim prata suficiente para comprar o seu lugar na mais rica carreira do mar.

A carreira em que se comprara era a Nau do Trato, a Grande Nau do Comércio. Ou antes, em 1626, os seus descendentes mais pequenos e mais desconfiados. Depois da catástrofe da Madre de Deus em 1610, quando o capitão-mor André Pessoa fizera explodir a sua própria nau no porto de Nagasáqui em vez de a entregar às forças japonesas, os portugueses tinham deixado de mandar fortalezas flutuantes isoladas e passado a mandar flotilhas de galeotas, mais rápidas, mais rasas e menos ostensivamente valiosas. A frota de Pacheco de 1626 era de seis destas, os porões carregados com os géneros de sempre da carreira: seda crua da China e tecidos finos de seda, damascos, tafetás, pelings, a par de ouro, almíscar, porcelana, chumbo, estanho e raiz-da-china e ruibarbo medicinais. No porão viria, no regresso, prata japonesa em quantidades tão vastas que uma única viagem bem sucedida podia transformar para sempre a posição de um mercador, e com ela cobre, cânfora, contadores lacados, biombos e as melhores espadas do mundo conhecido.

A aritmética da carreira Macau-Nagasáqui era ainda, em 1626, uma licença para ficar fabulosamente rico.

O que a aritmética não dizia era todo o resto. A cidade em que Pacheco entrava já não era o porto cosmopolita da sua juventude, quando os jesuítas de hábito negro andavam abertamente por ruas que tinham ajudado a construir, quando a nau anual era recebida como um monarca que regressa, e quando a relação entre Portugal e o Japão se media em ducados e não em decapitações. A Nagasáqui de 1626 era outra coisa inteiramente. Era o quartel-general operacional da mais sofisticada máquina anticristã do mundo, e Luís Paes Pacheco acabava de meter seis galeotas pelo meio dela adentro.

Estava prestes a fazer a pior viagem da sua vida. E a pior viagem da sua vida viria a ser a segunda pior.

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O Homem Que Comprou a Viagem

Quem Foi Luís Paes Pacheco e Como Comprou a Capitania do Japão

Pacheco nascera em 1572 em Kochi, Cochim, como lhe chamavam os portugueses, na costa do Malabar da Índia portuguesa. Cochim em 1572 era uma cidade de comércio da segunda ordem do império asiático português, ofuscada por Goa a norte mas próspera por direito próprio. Era um lugar onde um rapaz podia crescer a ver entrar navios de Malaca, das Molucas, de Macau, e onde os nomes de portos distantes não eram abstrações mas geografia prática, do modo como uma criança italiana poderia conhecer Nápoles ou uma criança holandesa Amesterdão. O Japão, para um rapaz em Cochim, ficava algures na orla do mundo conhecido. Era também de onde vinha o dinheiro.

Pelos anos de 1620, Pacheco mudara-se para leste, para Macau. Viúvo, bastante rico para contar nos assuntos da cidade, fizera o que faziam os mercadores macaenses bem sucedidos: convertera capital acumulado num quinhão do comércio do Japão. A Coroa, perpetuamente falida e perpetuamente esperançosa, usava as capitanias do Japão como uma espécie de esquema colonial de pensões, atribuindo o direito a viagens determinadas a instituições como a fortaleza de Malaca ou a cidade de São Tomé de Meliapor, que depois leiloavam os direitos a homens que os pudessem pagar. Era um sistema elegante. Mantinha as fortalezas financiadas, mantinha as viagens a navegar, e mantinha o risco verdadeiro aos ombros dos homens que tinham o dinheiro a ganhar. A Coroa nada perdia se o navio se afundasse. O comprador perdia tudo.

No caso de Pacheco, o que comprara era uma espoleta retardada. Entre a compra da capitania, por volta de 1622, e a sua viagem efetiva, em 1626, a paisagem política do Japão sofrera uma das mais violentas transformações da sua história. Em 1622 o Grande Martírio de Nagasáqui queimara ou decapitara cinquenta e cinco cristãos na colina de Nishizaka. Em 1623 Tokugawa Hidetada abdicara a favor do filho, e o filho marcara a sua ascensão com o Grande Martírio de Edo, cinquenta cristãos queimados na estrada principal de entrada na capital, seguidos de outros trinta e sete semanas depois. Em 1624 os espanhóis tinham sido formalmente expulsos do Japão. Em 1626 o novo governador de Nagasáqui, Mizuno Kawachi-no-kami Morinobu, fora nomeado para o cargo com um mandato explícito para agravar.

Pacheco pagara a viagem num mundo e estava prestes a navegá-la noutro.

Não sobrevive registo do que pensou enquanto as suas galeotas atravessavam o mar da China Oriental no verão de 1626. As fontes calam-se sobre a questão psicológica, talvez porque a questão psicológica teria parecido irrelevante a quem o conhecesse. Os mercadores da geração de Pacheco tinham sido criados para entender o risco como os jogadores entendem a probabilidade: como meteorologia e não como destino. Não se contemplava a viagem do Japão. Fazia-se, e esperava-se, e se Deus quisesse de outro modo morria-se tendo cumprido o dever para com a família e os credores. O sabor específico do risco, corsários holandeses, piratas chineses, magistrados Tokugawa, importava menos do que a aritmética do retorno esperado.

A aritmética continuava a favorecer a partida. Até deixar de favorecer.

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Planta colorida à mão de 1635 da cidade fortificada portuguesa de Malaca, cujo Senado municipal detinha o direito, concedido pela Coroa, de vender a Capitania da Viagem do Japão que Pacheco comprou por volta de 1622
Pedro Barreto de Resende, planta de Malaca portuguesa, em Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, de António Bocarro, 1635. CC0.

O Governador Com Um Mandato

Quem Foi Mizuno Kawachi-no-kami Morinobu, Governador de Nagasáqui

O homem que esperava Pacheco em Nagasáqui era um inovador burocrático do género que produz revoluções por acidente.

Mizuno Kawachi-no-kami Morinobu, para usar o seu título e nome formais, fora nomeado bugyō de Nagasáqui com uma incumbência específica do xogunato de Tokugawa Iemitsu. A incumbência era resolver um problema que os seus antecessores não tinham conseguido resolver. O problema era que matar cristãos não estava a resultar.

A aritmética da década anterior fora crua e embaraçosa. Ieyasu promulgara o Édito de Expulsão de 1614. Hidetada estendera a pena de morte às famílias e aos vizinhos. Os Grandes Martírios tinham queimado padres e leigos em praça pública. E, no entanto, a Igreja clandestina não colapsara. Se alguma coisa, endurecera. Os cinquenta e dois queimados vivos em Quioto em 1619 não tinham dissuadido os fiéis, tinham-nos inspirado. Os cinquenta e cinco de Nishizaka em 1622 não tinham produzido apostasia mas desafio, uma multidão de trinta mil a cantar hinos enquanto os condenados morriam em silêncio. O Estado Tokugawa estava a produzir mártires. Os mártires estavam a revelar-se maus para o negócio.

Mizuno fora nomeado para mudar isso.

Os seus instrumentos eram dois. O primeiro era o fumi-e, a prova de pisar a imagem. Exigia-se aos suspeitos de cristianismo que pisassem uma imagem de cobre ou de madeira de Cristo ou da Virgem Maria. A elegância teológica do dispositivo estava em que a recusa era prova de fé e o pisar era prova de apostasia; não havia terceira hipótese, e o ato de calcar a imagem produzia no crente um trauma que os recrutadores de informadores podiam explorar durante anos. O segundo eram as fontes ferventes do monte Unzen, uma serra sulfurosa de águas termais no oeste de Quiuxu cujas águas escaldantes podiam ser deitadas com concha, repetidamente, ao longo de horas ou de dias, sobre uma vítima atada e nua. Unzen não matava depressa. Fora concebido para não matar. O objetivo era quebrar o crente, não fazer dele um mártir, produzir o korobi, o cristão caído, que depois voltava a casa a pé e contava aos vizinhos o que tinha feito.

Estas duas inovações, o fumi-e e Unzen, foram o contributo de Mizuno para o vocabulário da perseguição religiosa. Seriam imitadas por todo o Japão durante os dois séculos seguintes. E estavam a ser introduzidas, operacionalmente, nos mesmos meses em que Luís Paes Pacheco navegava para Nagasáqui com um porão cheio de seda chinesa.

Mas Mizuno também andara a pensar nos portugueses.

A Igreja clandestina no Japão não se sustentava sozinha. Era alimentada, financeira, logística e espiritualmente, por uma rede clandestina de apoio que recuava até Macau. Os jesuítas, ainda sediados no enclave português, mandavam padres para o Japão disfarçados, escondidos em porões de carga, passados à socapa pelos inspetores do bugyō por mercadores solidários. Mandavam cartas. Mandavam prata. Agiam como banqueiros, como correios, como agentes de informação. E os mercadores portugueses de Macau, não apenas os jesuítas, mas os mercadores leigos com nomes como Pacheco, eram cúmplices a todos os níveis. Alguns transportavam correspondência. Alguns geriam fundos de cristãos japoneses que não ousavam ter prata em nome próprio. Alguns agiam como testas de ferro de padres que já não podiam comerciar abertamente mas ainda precisavam de viver.

Mizuno estudara o problema e concluíra que a solução não era matar mais cristãos. Era cortar a conduta.

O instrumento que concebeu para a cortar foram os faxaques.

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A Palavra Que Queria Dizer Barco Pequeno

O Que Foram os Faxaques de 1626 e as Suas Quatro Proibições

Faxaques é o nome que os portugueses davam a um okite japonês, escrito 掟, um corpo de regras vinculativas, e é, na sugestão de Boxer, uma corruptela de hashike, que originalmente significava um barco pequeno ou uma sampana. Como exatamente a palavra viajou de «sampana» para «conjunto de regulamentos vinculativos» é uma dessas viagens etimológicas que os linguistas seguem com algum prazer e que os restantes aceitamos como a lógica corrente das cidades portuárias, onde as palavras são carga e os sentidos mudam com a maré.

O que importa é o que a palavra passou a significar em Macau. Pelos anos de 1620, os faxaques eram uma categoria formal de édito, um conjunto de proibições ou regulamentos baixados pelas autoridades Tokugawa e impostos à comunidade mercantil portuguesa como condição para a continuação do comércio. Os faxaques de 1626 não foram o primeiro documento do género nem viriam a ser o último, mas foram o mais consequente. Foram o primeiro conjunto a exigir formalmente que os portugueses abandonassem a missão católica no Japão sob as suas próprias assinaturas.

O documento continha quatro proibições, cada uma delas apontada a uma artéria determinada do sistema de apoio da Igreja clandestina. As quatro sobrevivem numa recitação conservada em Madrid, onde quarenta e um repatriados do Japão, em janeiro de 1635, enumeraram as regras em vigor desde o ano em que Luís Paes Pacheco foi capitão-mor até aos seus próprios dias. Os portugueses, ao receberem o documento, eram obrigados a aceitá-lo formalmente, a assiná-lo e a jurar obediência. Pacheco, como capitão-mor da viagem de 1626, foi um dos principais signatários. Ao lado dele assinou o feitor do povo de Macau, João Vaz Preto, e vários outros mercadores portugueses particulares que operavam em Nagasáqui naquela estação. Assinaram na presença dos oficiais de Mizuno, sob condições de enorme pressão, com a ameaça tácita mas perfeitamente legível de que a recusa significaria o fim da sua viagem, da sua carga, dos seus lucros e, provavelmente, das suas vidas.

Assinaram.

A primeira proibição vedava aos portugueses o manuseio de prata pertencente a cristãos japoneses. Era um golpe direto na base de capital da Igreja clandestina. Convertidos japoneses abastados vinham colocando a sua prata junto de mercadores de Macau, fosse em depósito, fosse através de contratos de empréstimo marítimo (respondência), fosse como fundos destinados ao sustento de padres escondidos. Os faxaques tornaram criminosa cada uma dessas transações.

A segunda proibição vedava o contrabando de mantimentos, cartas, prata, escritos, quaisquer bens materiais, para os padres escondidos no Japão. Isto fechava a linha de vida logística. Os missionários clandestinos vinham sobrevivendo de um fio de apoio entrado às escondidas por mercadores solidários. Os faxaques tornaram os mercadores legalmente responsáveis pelo que transportavam.

A terceira proibição estendia-se no sentido contrário: aos padres residentes em Macau ficava inteiramente vedado mandar cartas, escritos ou mantimentos a quem quer que fosse no Japão, incluindo cristãos japoneses. Ficavam igualmente proibidos de se ocuparem «da mais pequena coisa que respeitasse ao trato e à comunicação». Isto cortava a ligação de comando entre o quartel-general jesuíta em Macau e a missão no Japão. A Igreja clandestina, segundo a lógica do raciocínio, definharia.

A quarta proibição fechava a última brecha: aos mercadores portugueses ficava proibido conduzir quaisquer negócios, tratos ou transações por conta dos missionários. Os padres já não podiam usar mercadores leigos como testas de ferro. A atividade económica que mantivera os jesuítas operacionalmente solventes ficava criminalizada a todos os níveis.

As quatro proibições, lidas em conjunto, equivaliam a uma ordem de estrangulamento. Mizuno não pedira aos portugueses que perseguissem cristãos. Pedira-lhes que deixassem de os sustentar. O efeito prático era idêntico, e o fardo moral transferia-se do Estado Tokugawa para a comunidade mercantil de Macau, que teria agora de decidir, estação após estação, quanto da missão estava disposta a deixar morrer para manter a sua frota de seda a navegar.

Pacheco, ao assinar no verão de 1626, foi dos primeiros a tomar essa decisão em nome da cidade. Não foi o último.

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O Preço de Uma Assinatura

As Penas por Quebrar os Faxaques e o Édito de Exclusão de 1639

Há uma indignidade particular em ser coagido a assinar um documento que se compreende perfeitamente que nos levará à forca se mais tarde o violarmos. Os redatores dos faxaques tinham garantido que as penas por incumprimento fossem individuais e coletivas ao mesmo tempo, um traço de conceção que tornava cada mercador de Macau responsável não só pela sua própria conduta mas pela conduta dos seus colegas.

A pena individual era simples: a morte. Quem fosse apanhado a violar os faxaques seria executado, e as fontes notam que a execução na Nagasáqui dos Tokugawa raramente era rápida. O caso mais bem documentado veio oito anos depois. Em 1634, um mercador de Macau chamado Jerónimo Luís Gouveia foi apanhado em Nagasáqui a transportar cartas de um padre japonês de Macau, Paulo dos Santos, dirigidas a cristãos de Nagasáqui com o fim de cobrar dívidas. As cartas eram banais. A violação foi fatal. Gouveia foi preso, interrogado e, em outubro de 1635, queimado na fogueira. Transportava correspondência. Não transportava um padre, nem prata, nem contrabando de qualquer significado. As cartas eram sobre dívidas. Ardeu na mesma.

A pena coletiva era mais sofisticada e, para as autoridades de Macau, mais aterradora. O governo japonês deixou explicitamente claro que qualquer infração por qualquer português seria tratada como uma infração de toda a cidade de Macau. Um padre entrado às escondidas, uma carta intercetada, uma transação não autorizada, e o xogunato decretaria que todo o comércio com Macau deveria cessar. Para uma cidade cuja economia inteira assentava na carreira de Nagasáqui, era uma sentença de morte vestida de regulamento comercial. O Senado de Macau, confrontado com este cálculo, começou a tomar medidas que os seus próprios cidadãos achavam repugnantes. Os padres infratores eram desterrados, para Malaca, para a Cochinchina, não porque Macau desaprovasse a sua missão mas porque Macau não podia dar-se ao luxo de ser associada a eles. A cidade, com efeito, começou a fazer o trabalho dos Tokugawa pelos Tokugawa, por pura autopreservação económica.

E no fim, embora ninguém no porto de Nagasáqui em 1626 o pudesse saber, a pena final não seria nem a execução individual nem o embargo comercial, mas o aniquilamento. O Kareuta Oshioki no Hōsho de 1639, o édito final de exclusão, decretaria que qualquer navio português que entrasse em águas japonesas em violação da sequência de proibições iniciada com os faxaques seria queimado, e que todo o marinheiro, mercador e passageiro a bordo seria decapitado. O crescendo levou treze anos, e os faxaques foram o primeiro andamento.

Pacheco assinou o que assinou no verão de 1626 porque a alternativa era perder seis galeotas cheias de seda. Não podia saber que estava a assinar a cláusula de abertura de um instrumento jurídico que, catorze anos depois, o mataria.

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Vista cartográfica de Macau de 1617, a cidade a que Pacheco regressava depois de cada viagem ao Japão e de onde partiu, em 1640, na embaixada fracassada que terminou com a sua execução em Nagasáqui
Willem Blaeu, vista de Macau (pormenor), de Asia noviter delineata, publicada pela primeira vez em 1617. Domínio público.

As Deportações

A Deportação de Cristãos Japoneses e Crianças Eurasianas para Macau em 1626

Os faxaques não foram a única humilhação da viagem de 1626. A par da assinatura forçada, Pacheco recebeu ordem de prestar um serviço que talvez lhe tenha parecido, na altura, a pior indignidade da estação.

Recebeu ordem de deportar cristãos.

A categoria específica de pessoas a deportar abrangia convertidos japoneses e indivíduos de ascendência mista luso-japonesa, as crianças eurasianas que tinham sido geradas, ao longo das décadas do comércio, por pais portugueses e mães japonesas. O governo de Mizuno decidira que esta gente era uma contaminação. Haviam de ser embarcados nas galeotas portuguesas em partida e expedidos para fora do Japão, ostensivamente até à Índia portuguesa, ainda que as fontes notem, com o suspiro leve de quem já viu manifestos de carga contarem a sua própria história, que a maioria nunca viajou para lá de Macau. As crianças eurasianas, em particular, acabaram na cidade que produzira os seus pais, criadas numa comunidade de língua portuguesa que era reconhecivelmente a sua, mas separadas para sempre do mundo japonês a que as suas mães tinham pertencido. Foi uma política de amputação cultural, executada com a logística da navegação comum.

As galeotas que tinham chegado a Nagasáqui carregadas de seda partiram carregadas de gente.

Tenta-se, a esta distância, imaginar o aspeto disto no convés. Crianças que nunca tinham visto o oceano. Mães cristãs japonesas a segurar os seus filhos meio portugueses. Velhos que tinham servido missões jesuítas. Todos eles de pé no convés apertado de uma galeota portuguesa comandada por um homem que acabara de assinar um documento em que se comprometia a cortar precisamente a comunidade que aqueles passageiros representavam. Pacheco, o instrumento do seu exílio, era também um homem de Cochim, um português nascido na Índia para um mundo de mestiçagem colonial, que teria reconhecido nos rostos das crianças algo parecido com a realidade demográfica da sua própria terra natal.

As fontes não registam o que ele pensou. As fontes raramente o fazem. As deportações prosseguiram.

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A Longa Coda

Como Luís Paes Pacheco Morreu com a Embaixada de Macau de 1640 em Nagasáqui

Pacheco navegou de volta a Macau no outono de 1626 com a carga convertida em prata, o juramento prestado e a lista de passageiros maior do que pretendera. A viagem foi, no seu balanço, um êxito: a seda vendera-se, a prata subira a bordo, a frota regressara intacta. Em todas as outras medidas, foi um ponto de inflexão. Macau operava agora, formalmente, sob um édito japonês que criminalizava a missão jesuíta. A cidade passaria os treze anos seguintes a tentar preservar o comércio estrangulando os seus próprios missionários, e o Estado Tokugawa passaria esses mesmos anos a concluir, corretamente, que o estrangulamento era insuficiente.

O próprio Pacheco regressou a Macau e retomou a vida de mercador. Ainda não tinha sessenta anos. Tinha dinheiro. Era respeitado. Continuou a ocupar na cidade a posição que a sua capitania de 1626 lhe cimentara. Mas o mundo à sua volta ia encolhendo. A Rebelião de Shimabara de 1637-38, um levantamento camponês no oeste de Quiuxu que o xogunato viria a enquadrar, retrospetivamente e por razões suas, como um levantamento cristão, produziu a rutura final. Em 1639 veio o édito que Pacheco ajudara a prefigurar: expulsão completa dos portugueses, qualquer navio que chegasse seria queimado, todos os tripulantes seriam decapitados. A porta do sakoku fechou-se com estrondo.

Macau ficou economicamente destroçada. O Senado, desesperado, começou a preparar uma embaixada, uma missão diplomática de último recurso para suplicar ao xogunato a restauração do comércio. O embaixador escolhido, o homem que a idade, o prestígio, a experiência do Japão e a comprovada disposição para assinar documentos difíceis recomendavam ao Senado, foi Luís Paes Pacheco. Tinha 68 anos.

A Embaixada de Macau de 1640 é tratada em pormenor noutro ponto deste sítio. A versão curta é que Pacheco entrou no porto de Nagasáqui uma segunda vez, no seu traje de gala, levando uma petição, uma oferta de pagamento de dívidas e as esperanças de uma cidade colonial moribunda. O xogunato de Iemitsu respondeu prendendo a delegação, confinando-a em Dejima durante um mês, e lendo-lhe depois uma sentença de morte na voz formal do decreto imperial. Na colina de Nishizaka, o mesmo Monte dos Mártires onde os cinquenta e cinco tinham ardido em 1622, a mesma colina onde os vinte e seis tinham sido crucificados em 1597, Luís Paes Pacheco ajoelhou-se com sessenta membros da sua delegação e foi decapitado por um carrasco japonês treinado, como todos os carrascos japoneses do seu ofício, para a eficiência administrativa.

Era agosto de 1640. Pacheco fora capitão-mor da viagem de 1626. Assinara os faxaques. Embarcara as crianças eurasianas para Macau. Passara catorze anos a tentar manter vivo um comércio em condições concebidas para o tornar impossível. Voltara a Nagasáqui com uma oferta de entendimento, e o xogunato recusara o entendimento, com cortesia a princípio e depois de forma muito definitiva, na mais antiga linguagem que o Estado Tokugawa sabia falar.

A cabeça do capitão-mor de 1626 foi espetada num pique acima da colina.

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O Que a Assinatura Significou

Porque os Faxaques de 1626 Mudaram o Comércio de Macau com o Japão

Há uma tendência, ao olhar para trás para o longo declínio do comércio português com o Japão, para o tratar como um processo único, um lento apertar dos parafusos, indiferenciado, inevitável, com um começo claro em 1614 e um fim claro em 1639. A tendência não está inteiramente errada, mas escamoteia algo importante acerca da mecânica efetiva da mudança histórica. O declínio não é uma curva suave. É uma sequência de transações determinadas, cada uma delas executada por indivíduos com nome, em lugares identificáveis, em datas registadas, e cada uma delas extraindo uma concessão precisa que não poderia ter sido extraída das mesmas pessoas um ano antes.

Os faxaques de 1626 foram uma dessas transações. Marcaram o momento em que a comunidade mercantil portuguesa de Macau, os homens que tinham construído o comércio, que nele tinham investido as suas fortunas, que tinham tratado a carreira do Japão como o alicerce estrutural da sua cidade, foi compelida a aceitar, sob assinatura e juramento, que o Estado Tokugawa tinha autoridade para ditar os termos do seu envolvimento com o cristianismo japonês. Antes de 1626, Macau podia fingir publicamente que a missão e o comércio eram assuntos separáveis, que os jesuítas e os mercadores operavam em esferas diferentes, que os navios da seda eram embarcações comerciais cujo transporte ocasional de padres era matéria de consciência privada. Depois de 1626, Macau já não podia fingir tal coisa. A cidade assinara um documento que dizia o contrário. Cada violação subsequente, as cartas de Gouveia, os padres entrados às escondidas, os depósitos discretos de prata, seria entendida por ambos os lados como quebra de um instrumento jurídico explícito.

Mizuno tinha, por outras palavras, mudado a forma do problema. Tinha transferido os portugueses do banco dos réus para o rol dos réus. A Igreja clandestina continuava a existir. O contrabando continuava a acontecer. Os mártires continuavam a ser feitos. Mas a arquitetura diplomática que protegera estas atividades, a possibilidade de os portugueses alegarem que a missão católica não era assunto deles, fora demolida pela assinatura de um único documento no verão de 1626.

Para Luís Paes Pacheco, a assinatura foi o preço de uma boa viagem. Para o Estado Tokugawa, foi uma alteração estrutural da relação luso-japonesa. Para a missão jesuíta no Japão, foi o princípio do último capítulo. Os padres aguentariam, a maioria deles, mais uma década ou coisa parecida. Os Kakure Kirishitan, os Cristãos Escondidos de Quiuxu, aguentariam mais dois séculos. Mas a Igreja Católica formal no Japão recebera uma data de execução, e as assinaturas nos faxaques estavam entre as testemunhas da sua sentença.

Pacheco morreu na colina de Nishizaka em 1640 sabendo, imagina-se, alguma coisa sobre o que a sua capitania de 1626 pusera em movimento. Se se sentiu responsável por isso, ou apenas usado por isso, é pergunta a que as fontes não respondem. Fora mercador. Comprara uma viagem. Navegara-a através de uma tempestade política que ninguém na Macau de 1622 poderia ter antecipado por inteiro, e quando um bugyō japonês lhe exigiu a assinatura, pesou as alternativas e deu-a. Catorze anos depois, o Estado que lhe extraíra a assinatura extraiu-lhe a vida.

A missão da embaixada régia sob Siqueira de Souza em 1644-47 seria ignorada até partir, e a última viagem do São Paulo, em 1685, traria uma derradeira quilha portuguesa a um porto japonês quatro décadas depois da morte de Pacheco, apenas para lhe dizerem, delicadamente, que a porta continuava fechada.

A porta vinha a fechar-se havia muito tempo. A assinatura de 1626 foi uma das mãos determinadas que a empurraram.

Fontes & Leitura Adicional

Boxer, C.R. The Great Ship from Amacon: Annals of Macao and the Old Japan Trade, 1555–1640. Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1959. O estudo fundador do comércio Macau-Nagasáqui, com tratamento pormenorizado do sistema de capitanias, das flotilhas de galeotas dos anos de 1620 e 1630, e da mecânica financeira dentro da qual Pacheco operava.

Boxer, C.R. The Christian Century in Japan, 1549–1650. University of California Press, 1951. Indispensável para o contexto religioso e político mais amplo da viagem de 1626, incluindo o papel de Mizuno Kawachi-no-kami no agravamento da perseguição.

Cooper, Michael. They Came to Japan: An Anthology of European Reports on Japan, 1543–1640. University of Michigan Press, 1965. Contém extratos traduzidos de fontes portuguesas e jesuítas que descrevem as condições do comércio de Nagasáqui sob o regime dos faxaques.

Elison, George. Deus Destroyed: The Image of Christianity in Early Modern Japan. Harvard University Press, 1973. O relato de referência sobre o enquadramento ideológico da perseguição anticristã, com atenção particular ao desenvolvimento institucional do fumi-e, do sistema de registo nos templos terauke, e da transformação do comércio em arma contra a missão.

Hesselink, Reinier H. The Dream of Christian Nagasaki: World Trade and the Clash of Cultures, 1560–1640. McFarland, 2016. Essencial para a história específica de Nagasáqui sob a administração de Mizuno, incluindo a introdução das torturas de Unzen e da prova do fumi-e, e a experiência da comunidade mercantil portuguesa durante os anos de 1620.

Laver, Michael S. The Sakoku Edicts and the Politics of Tokugawa Hegemony. Cambria Press, 2011. Traça a sequência das diretivas anticristãs e antiestrangeiras desde o Édito de Expulsão de 1614 até à Exclusão de 1639, situando os faxaques na escalada legislativa mais ampla.

Massarella, Derek. A World Elsewhere: Europe's Encounter with Japan in the Sixteenth and Seventeenth Centuries. Yale University Press, 1990. Um estudo comparado das presenças comerciais europeias no Japão, incluindo a resposta portuguesa ao aperto do regime regulamentar dos anos de 1620.

Oka, Mihoko. The Namban Trade: Merchants and Missionaries in 16th and 17th Century Japan. Brill, 2021. Publica, em inglês, os quatro artigos do okite de 1626, os faxaques que Pacheco e o feitor João Vaz Preto assinaram, a partir do manuscrito de Madrid do processo de Paulo dos Santos.

Oka, Mihoko. 「日本関係マカオ史料にみる寛永十一年のパウロ・ドス・サントス事件」 [O caso Paulo dos Santos de Kan'ei 11 nas fontes de Macau relativas ao Japão]. 東京大学史料編纂所研究紀要 15 (2005): 75–94. Publica os mesmos quatro artigos do faxaque a partir da Biblioteca de la Real Academia de la Historia, Madrid, Legajo 9-7239(2), f. 421, e propõe o okite de Kan'ei 3 como origem do édito de exclusão de 1639.

Pagès, Léon. Histoire de la religion chrétienne au Japon depuis 1598 jusqu'à 1651. Charles Douniol, 1869–70. A compilação francesa oitocentista continua a ser referência para a cronologia detalhada da perseguição, incluindo a execução de Jerónimo Luís Gouveia em 1635.

Ribeiro, Madalena. "The Japanese Diaspora in the Seventeenth Century: According to Jesuit Sources." Bulletin of Portuguese/Japanese Studies 3 (2001): 53–83. Sobre as comunidades japonesas e eurasianas deportadas de Nagasáqui nos anos de 1620 e o seu destino em Macau e mais além.

Souza, George Bryan. The Survival of Empire: Portuguese Trade and Society in China and the South China Sea, 1630–1754. Cambridge University Press, 1986. Cobre as consequências económicas do declínio do comércio do Japão para Macau e as adaptações comerciais posteriores da cidade.

Valignano, Alessandro, e a correspondência jesuíta do Japão. Diversas cartas e relatórios conservados na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, e na coleção Jesuítas na Ásia da Biblioteca da Ajuda, documentam o impacto operacional dos faxaques na missão clandestina.

Videira Pires, Benjamim, S.J. A Viagem de Comércio Macau-Manila nos Séculos XVI a XIX. Instituto Cultural de Macau, 1994. Um estudo em português das redes comerciais de Macau que contextualiza a capitania do Japão no sistema mais vasto do Estado da Índia.