O Rapaz de Enkhuizen

Quem Foi Jan Huyghen van Linschoten? Nascimento e Infância na Holanda

A mais devastadora falha de segurança do Império Português começou com um rapaz que lia livros a mais.

Jan Huyghen van Linschoten — "João, filho de Hugo", assim chamado pela aldeia de Linschoten, na província de Utreque — nasceu por volta de 1563 em Haarlem, numa família católica romana com modestas ligações comerciais ao mundo ibérico. Os pais, Huych Joosten e Maertgen Hendrics, tinham vindo da vizinha vila de Schoonhoven, e a primeira infância do filho foi moldada pela experiência que mais definiu os Países Baixos do século XVI: a guerra.

A Guerra dos Oitenta Anos entre os neerlandeses e os seus senhores espanhóis engoliu Haarlem por inteiro. Os espanhóis foram expulsos da Holanda em 1572, retomaram a cidade após um cerco brutal em 1573 e deixaram atrás de si uma população que aprendera o que sucedia a quem ficava do lado derrotado de um conflito religioso. O pai de Linschoten — "o velho Hugo" — fez o que faria qualquer homem sensato com família: fez as malas e mudou-se para Enkhuizen, porto de mar no Zuiderzee que cedo se declarara pela causa rebelde.

Enkhuizen era uma vila construída sobre o arenque salgado e o mar. O seu porto eriçava-se de mastros. Os seus mercadores negociavam por todo o Báltico e o mar do Norte. Para um rapaz com apetite por histórias de terras distantes. Linschoten recordaria mais tarde que desde novo tirava não pequeno deleite da leitura de histórias e relatos de aventuras estranhas, e que essas histórias lhe tinham acendido um desejo de ver o mundo que nenhuma cautela paterna conseguiria extinguir. Tinha opiniões firmes sobre a alternativa. Não havia, escreveu, tempo mais desperdiçado do que aquele em que um jovem se demora pela cozinha da mãe, sem saber o que é a pobreza, nem o luxo, nem o que se encontra no mundo — uma ignorância que era muitas vezes causa da ruína de um homem.

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O Caminho para Lisboa

Como um Católico Neerlandês Chegou a Lisboa e à Carreira da Índia, 1576–1583

Dois dos irmãos de Linschoten tinham já partido para Espanha antes de 1576, atrás das oportunidades mercantis que o mundo ibérico oferecia a quem tivesse nervo e relações, independentemente do lado em que estivesse na divisão religiosa. O facto de a família Linschoten ser católica ajudava — permitia-lhes operar em territórios espanhóis e portugueses sem as complicações teológicas que teriam feito tropeçar um calvinista —, mas a verdadeira moeda era a ambição comercial, e os irmãos tinham-na em abundância.

João seguiu-os. Viajou primeiro para Sevilha, a grande câmara de compensação da prata do Atlântico espanhol, e depois para Lisboa, onde chegou por volta de 1576 e permaneceu até 1579. A Lisboa da década de 1570 era a incontestada capital do mundo marítimo. Todos os anos a Carreira da Índia — a grande armada da Índia — partia do estuário do Tejo rumo a Goa, levando soldados, missionários e mercadores para um império colonial que se estendia de Moçambique a Macau. Todos os anos esses navios regressavam carregados de pimenta, canela, seda e dos lucros acumulados de um monopólio que corria, sem contestação séria de qualquer potência do Norte da Europa, havia quase um século.

Para um jovem neerlandês de olhos agudos e memória ampla, Lisboa era uma educação. Os cais cheiravam a especiaria e a ambição. A Casa da Índia — o complexo de armazéns régios — processava as cargas que chegavam. As ruas zumbiam de informação sobre preços, rotas e os mil pequenos desastres que afligiam cada armada. E por toda a parte, para quem soubesse onde olhar, estavam as fissuras na fachada: os navios que voltavam meio vazios, os oficiais que sussurravam sobre a corrupção em Goa, a ruinosa sobre-extensão de um reino minúsculo a tentar segurar um império que abarcava três oceanos com uma população menor do que a de uma única grande cidade alemã.

Linschoten olhou. Linschoten escutou. E em 1583 o seu irmão conseguiu-lhe o lugar que viria a mudar a história da expansão europeia.

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O Escrivão do Arcebispo

Porque o Arcebispo de Goa Contratou Linschoten como Escrivão em 1583

O lugar era o de escrivão de D. Frei Vicente da Fonseca, recém-nomeado arcebispo de Goa — isto é, arcebispo de todas as Índias, o mais graduado prelado católico a oriente de Roma, o homem responsável pelo governo espiritual de todas as possessões coloniais portuguesas, da África Oriental ao Japão.

Fonseca era um frade dominicano de casa nobre que vira mais extremos da vida do que a maioria dos homens de hábito. Servira como capelão do jovem rei D. Sebastião de Portugal e acompanhara o rei na catastrófica invasão de Marrocos em 1578 — a batalha de Alcácer-Quibir, onde Sebastião morreu (ou desapareceu; os portugueses passariam o século seguinte a discutir qual das duas), a flor da nobreza portuguesa foi chacinada e o próprio Fonseca foi capturado e mantido preso até se pagar resgate. A sobrevivência valeu-lhe o favor de Filipe II de Espanha, que absorvera a coroa portuguesa em 1580 e precisava agora de homens leais para administrar um império que de repente era da sua responsabilidade.

Fonseca não queria o cargo. Temia a viagem para a Índia — meses de escorbuto, tempestades e a possibilidade bem real de nunca chegar — e recusou inicialmente a nomeação. Filipe convenceu-o prometendo chamá-lo de volta a um lugar melhor em Portugal dentro de quatro ou cinco anos.

Para Linschoten, a nomeação foi providencial. Como escrivão pessoal do arcebispo, teria acesso à correspondência eclesiástica de todos os cantos do Oriente português. Ficaria no centro de uma rede de informação que ligava Goa a Macau, Macau a Nagasáqui, Nagasáqui às missões jesuítas espalhadas pelo arquipélago japonês. Manusearia documentos que a maioria dos oficiais portugueses, quanto mais os mercadores estrangeiros, jamais veria. Seria de confiança, porque era católico, porque era o homem do arcebispo e porque ninguém na administração colonial portuguesa desenvolvera ainda a paranoia institucional necessária para suspeitar de que um escrivão neerlandês e discreto pudesse estar a tomar apontamentos muito cuidadosos.

A armada partiu de Lisboa a 8 de abril de 1583. Tocaram Moçambique a 5 de agosto, fizeram aguada e mantimentos e entraram no rio de Goa a 21 de setembro. O arcebispo Fonseca foi conduzido à cidade em grande triunfo e instalado no seu palácio. Linschoten desfez as malas, aparou a pena e deu início à operação de espionagem mais consequente do século XVI.

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Cinco Anos no Coração da Máquina

O Que Linschoten Viu em Goa: A Corrupção no Estado da Índia

A Goa da década de 1580 era a capital de tudo o que Portugal dizia controlar a oriente do cabo da Boa Esperança — e um catálogo vivo de tudo o que não controlava. A cidade era cosmopolita como poucas cidades europeias conseguiam ser: indianos, mouros, judeus, arménios, guzerates, baneanes e brâmanes acotovelavam-se com fidalgos portugueses, missionários jesuítas, frades dominicanos, soldados de fortuna e mercadores de todos os cantos do mundo do oceano Índico. Linschoten registou tudo com o olhar desapaixonado de quem entendera que a informação valia mais do que a especiaria.

Observou que Goa funcionava segundo um princípio de tolerância religiosa pragmática que teria escandalizado os inquisidores lá de Lisboa. Aos não-cristãos era permitido viver e negociar livremente na cidade, desde que praticassem o seu culto de portas fechadas. A esfera pública era católica. A esfera comercial era o que fosse preciso ser. Esta era a lógica fundamental de funcionamento do Império Português — a fé à porta da frente, o lucro à das traseiras — e Linschoten apreendeu-a de imediato.

Foi igualmente agudo quanto à podridão estrutural do império. Os oficiais portugueses, documentou, tratavam as suas nomeações régias como feudos comerciais pessoais. Usou a fortaleza de Ormuz, no golfo Pérsico, como estudo de caso: a sua capitania era um dos postos mais lucrativos das Índias, não por qualquer função administrativa legítima, mas porque o capitão podia impor um monopólio ilegal sobre todo o comércio que passava pelo estreito. Nenhum homem podia comprar ou vender, carregar ou descarregar mercadoria alguma antes de o capitão ter vendido, embarcado, fretado e despachado a sua. O rei de Portugal proibia expressamente a prática. Os capitães, operando a milhares de léguas de qualquer fiscalização efetiva, ignoravam a proibição com a serena confiança de quem sabia que, quando alguma queixa chegasse a Lisboa, já estariam ricos e retirados.

Não era um caso isolado. Linschoten documentou um padrão de corrupção sistemática que permeava todo o Estado da Índia — dos vice-reis que chegavam pobres e partiam ricos, aos oficiais da alfândega que desviavam parte das cargas, aos comandantes militares que negociavam quando deviam estar a patrulhar. O império não era meramente corrupto; era estruturalmente dependente da corrupção, porque a Coroa não tinha meios para pagar aos seus oficiais salários adequados e os compensava, em vez disso, com oportunidades de proveito ilícito. O sistema funcionava enquanto não aparecesse um concorrente externo capaz de explorar as ineficiências daí resultantes.

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A Informação sobre o Japão

O Que Linschoten Soube do Japão, da Seda e da Prata Japonesa

Linschoten nunca navegou para leste além de Goa. Nunca pôs o pé em Macau, nunca viu a Nau do Trato lançar ferro no porto de Nagasáqui, nunca subiu as colinas socalcadas de uma cidade portuária japonesa. Tudo o que sabia do Extremo Oriente aprendeu-o em segunda mão — da correspondência jesuíta que passava pelo gabinete do arcebispo, de documentos náuticos portugueses classificados e do testemunho de mercadores e marinheiros que regressavam a Goa com histórias de um mercado tão lucrativo que roçava o fantástico.

O seu informador mais valioso era um compatriota: Dirck Gerritsz, bombardeiro de Enkhuizen que navegara duas vezes ao Japão a bordo de navios portugueses. Gerritsz fizera a viagem de ida e volta de Macau a Nagasáqui na grande nau Santa Cruz em 1585–86, e trazia na cabeça — e, o que era decisivo, no seu diário de bordo — os roteiros exatos da rota comercial mais lucrativa do Império Português. Os dois homens de Enkhuizen encontraram-se em Goa, como tendem a encontrar-se os conterrâneos no estrangeiro, e Gerritsz partilhou tudo: rumos, fundos, baixios, ancoradouros, o calendário das monções, os marcos de terra que guiavam a Nau do Trato pelas traiçoeiras aproximações à costa japonesa.

Linschoten recolheu também informação dos relatos jesuítas que corriam pela rede de correspondência do arcebispo. A Companhia de Jesus mantinha um sistema de comunicações extraordinariamente detalhado — cartas ânuas, relatórios especiais, contas financeiras — que acompanhava todos os aspetos da missão no Japão, do número de convertidos em cada domínio às lealdades políticas dos daimyō locais e às quantidades precisas de seda trocadas por prata. Para o escrivão do arcebispo, ler este material era parte do ofício. Catalogá-lo para futuro uso neerlandês era iniciativa sua.

O quadro que emergiu era extraordinário. O Japão, ficou Linschoten a saber, era um conjunto de grandes ilhas cujos habitantes eram ricos, sofisticados e desesperadamente ávidos de seda chinesa — mercadoria que os portugueses, aproveitando o embargo comercial da dinastia Ming ao Japão, forneciam em troca de prata japonesa com margens que fariam um banqueiro veneziano chorar de inveja. O capitão-mor que detinha o monopólio da viagem anual do Japão podia contar com um lucro líquido de 150 000 a 200 000 ducados — soma tão grande que representava uma fração significativa da receita anual da Coroa portuguesa em todo o império do Oriente. A carreira Macau–Nagasáqui era, muito simplesmente, a rota comercial mais lucrativa da Terra, e os portugueses corriam-na havia décadas sem qualquer concorrência europeia.

Linschoten anotou os pormenores com a precisão de quem monta um prospeto de investimento. Registou os três tipos de seda que os portugueses transportavam — sendo a mais fina a seda branca de Nanquim —, a par das moedas locais, das taxas de câmbio e das mercadorias específicas disponíveis nos mercados japoneses. Não estava meramente a observar. Estava a construir um argumento de negócio.

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O Roubo do Século

O Que Eram os Roteiros e Como os Roubou Linschoten?

A coisa mais devastadora que Linschoten roubou não foi informação sobre o Japão. Foram os meios de lá chegar.

Os portugueses tinham mantido o monopólio do comércio do Oriente durante quase um século não sobretudo pela força militar — faltavam-lhes homens para isso —, mas pelo controlo da informação. Os roteiros, as instruções de navegação classificadas que guiavam os navios portugueses de Lisboa a Goa, de Goa a Malaca, de Malaca a Macau, de Macau a Nagasáqui, eram segredos de Estado guardados com uma intensidade que qualquer serviço de informações moderno reconheceria. Não eram descrições vagas de costas distantes. Eram manuais náuticos precisos: todos os rumos, portos, ilhas, fundos, baixios, bancos de areia, as épocas do ano em que sopram os ventos, com os verdadeiros sinais e o conhecimento das marés e do tempo. Eram as chaves do império, e os portugueses compreendiam perfeitamente que, no instante em que essas chaves caíssem nas mãos erradas, o monopólio estaria acabado.

Linschoten copiou-os. Metodicamente, ao longo dos cinco anos em Goa, transcreveu roteiro após roteiro — instruções de navegação portuguesas e espanholas cobrindo as rotas do mar da Arábia à costa da China. Obteve os roteiros exatos da ida e volta Macau–Nagasáqui tal como navegada pela Santa Cruz, por cortesia de Dirck Gerritsz. Compilou as rotas de aproximação aos principais ancoradouros japoneses: Kuchinotsu e Fukuda no sudoeste de Kyūshū, os rumos alternativos de regresso de Hirado a Macau. Complementou-os com notas exaustivas sobre profundidades, baixios, padrões de maré e calendário das monções.

A escala do roubo era de cortar a respiração. Num único e sustentado ato de espionagem, um escrivão neerlandês a coberto da casa de um arcebispo reuniu toda a infraestrutura náutica de que as frotas do Norte da Europa precisariam para alcançar, e comerciar com, todos os mercados importantes da Ásia marítima. Os portugueses tinham levado um século a construir este saber, expedição a expedição, naufrágio a naufrágio, estima a estima. Linschoten levou-o em cinco anos, com uma pena e boa memória.

Chegou também a uma conclusão que era, discutivelmente, mais perigosa do que as próprias cartas roubadas: o Império Português era uma ilusão. As vastas faixas de território que reclamava nos seus mapas — as ilhas das especiarias do arquipélago indonésio, os portos comerciais do Sudeste Asiático, as rotas marítimas entre a Índia e a China — não estavam, em muitos casos, sob qualquer controlo militar ou político português digno desse nome. As guarnições estavam desfalcadas. As fortalezas, mal conservadas. Regiões inteiras que figuravam nos mapas portugueses como possessões imperiais eram, na realidade, entidades independentes onde os mercadores europeus podiam negociar livremente bastando aparecer. Em Java, notou Linschoten, os mercadores europeus bem podiam traficar sem embaraço nenhum, pois os portugueses não iam de facto lá.

Esta era a informação que mais importava. Os roteiros diziam aos neerlandeses como chegar à Ásia. A avaliação da fraqueza portuguesa dizia-lhes que podiam sobreviver quando lá chegassem.

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O Longo Caminho de Regresso

O Regresso de Linschoten de Goa a Enkhuizen, 1589–1592

O arcebispo Fonseca morreu em Goa em 1587, e com ele foi-se a cobertura institucional de Linschoten. O escrivão ficou mais um ano — havia negócios a liquidar, dívidas a cobrar e, suspeita-se, alguns últimos documentos a copiar — antes de partir de Cochim a 20 de janeiro de 1589, a bordo de um navio que levava também o seu amigo Dirck Gerritsz.

A viagem de regresso tornou-se, por direito próprio, uma aventura. A armada tocou Santa Helena para fazer mantimentos, e ali Linschoten deu com Gerrit van Afhuysen, mercador de Antuérpia que voltava de catorze meses em Malaca. Afhuysen era uma mina de informação comercial sobre o Extremo Oriente, e Linschoten interrogou-o com a minúcia de quem entendera que cada migalha de informação tinha valor. Encontrou ainda tempo para desenhar as costas de Santa Helena e da ilha da Ascensão — porque era esse o género de homem que era: um documentador compulsivo, incapaz de deixar passar geografia sem a registar.

A armada alcançou os Açores a 22 de julho de 1589, mas a presença de esquadras corsárias inglesas nas águas em torno da Terceira tornava a aproximação perigosa. Os navios fundearam com inquietação e, a 4 de agosto, uma tempestade fez soçobrar a nau vinda de Malaca. O navio afundou-se levando uma fortuna em carga do Oriente, e Afhuysen — que tinha interesse comercial nos destroços — convenceu Linschoten a ficar na Terceira e a ajudar a organizar o salvamento com mergulhadores.

Linschoten concordou, e o que devia ser uma escala breve tornou-se uma estada de dois anos. O governador local simpatizou com o neerlandês de tantas viagens e deu-lhe o livre trânsito da ilha, incluindo um cavalo — sinal de favor considerável. Linschoten aproveitou o tempo produtivamente. Escreveu uma descrição completa dos Açores. Documentou as expedições corsárias inglesas que rondavam aquelas águas. E estava presente quando o comandante inglês Sir Richard Grenville, a bordo do Revenge, travou a sua famosa última batalha contra uma frota espanhola ao largo das Flores, em agosto de 1591 — espetáculo de heroísmo naval condenado que Linschoten registou para a posteridade.

Chegou finalmente a Lisboa a 2 de janeiro de 1592 e a casa, em Enkhuizen, a 3 de setembro do mesmo ano, após uma ausência de quase treze anos. Encontrou a mãe, o irmão e a irmã de boa saúde. O pai morrera pouco depois da sua partida.

Linschoten tinha vinte e nove anos. Tinha na sua posse a mais completa coleção de informação imperial portuguesa alguma vez reunida por um estrangeiro. Agora tinha de decidir o que fazer com ela.

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O Livro Que Lançou Mil Navios

O Que É o Itinerario? O Livro de Linschoten de 1596 e as Suas Quatro Partes

O que fez foi escrever. Durante três anos, Linschoten compilou a sua vasta coleção de apontamentos, observações, mapas, dados náuticos roubados e informação comercial numa obra de tal alcance e utilidade prática que viria a remodelar a geopolítica do hemisfério oriental. O resultado foi o Itinerario: Voyage ofte Schipvaert van Jan Huygen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien, publicado em Amesterdão entre 1595 e 1596.

O livro era enorme em todos os sentidos. Dividia-se em quatro tratados principais que, no seu conjunto, funcionavam como manual enciclopédico do mercador, levantamento etnográfico e guia de navegação — o género de livro de que uma nação precisaria se quisesse mandar os seus próprios navios à Ásia sem depender, para isso, da boa vontade portuguesa.

O primeiro tratado era o relato pessoal de Linschoten da sua viagem e dos cinco anos em Goa: um retrato vívido e profundamente observado do mundo colonial português, dos seus povos, costumes, religiões, governos e — sempre, implacavelmente — das suas oportunidades comerciais. O segundo tratado, tido por tão urgente que foi de facto impresso primeiro, em volume separado, em 1595, continha os roteiros roubados: as rotas marítimas classificadas e os guias de navegação que os portugueses tinham guardado como segredos de Estado durante um século. Dezenas de páginas em fólio eram dedicadas especificamente às costas da China e do Japão. A terceira secção fornecia informação comercial minuciosa sobre as mercadorias asiáticas — pimenta, noz-moscada, macis, cânfora, seda —, com pormenores sobre origens, preços e as moedas e pesos específicos usados em cada mercado. O quarto tratado cobria as regiões que Linschoten nunca visitara — China, Japão, Sudeste Asiático —, apoiando-se nas suas entrevistas com mercadores e marinheiros e na correspondência jesuíta que lera em Goa.

O Itinerario continha ainda algo que descrições puramente textuais não podiam transmitir: mapas. Mapas gravados e detalhados das rotas marítimas, das costas, dos portos — informação visual que transformava instruções de navegação abstratas em algo que um navegador podia de facto usar. Não eram obra do próprio Linschoten; colaborou com os melhores cartógrafos neerlandeses disponíveis. Mas os dados eram seus, e os dados eram roubados, e a combinação de texto e imagem fez do Itinerario uma arma de extraordinária precisão.

O impacto foi imediato. Richard Hakluyt, o grande geógrafo inglês que passara anos a pressionar a Coroa inglesa a desafiar o monopólio ibérico, reconheceu de imediato no Itinerario aquilo que era: uma planta para entrar à força no comércio do Oriente. Por insistência de Hakluyt, publicou-se uma tradução inglesa em 1598 — John Huighen Van Linschoten his Discours of Voyages into ye Easte and West Indies — e as traduções seguintes para francês, latim e alemão fizeram dele um fenómeno pan-europeu.

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As Frotas Que Se Seguiram

Como o Itinerario Lançou a VOC e a Companhia das Índias Orientais, 1595–1602

O Itinerario não se limitava a descrever a possibilidade de um comércio do Norte da Europa na Ásia. Fornecia uma estratégia específica e acionável. Linschoten identificara Java como a vulnerabilidade decisiva: uma grande fonte de especiarias que não estava sob controlo militar português e onde, garantia aos leitores, os mercadores europeus podiam traficar sem embaraço nenhum. O conselho era preciso, comercialmente fundamentado e devastadoramente certeiro.

Em abril de 1595 — poucos meses após a publicação do volume náutico —, a primeira frota neerlandesa rumo às Índias Orientais fez-se ao mar sob o comando de Cornelis de Houtman. A expedição visou o estreito de Sonda e Java, exatamente como Linschoten recomendara, evitando deliberadamente as praças-fortes portuguesas. O Reys-gheschrift — o roteiro extraído do Itinerario — estava já impresso e seguia a bordo. A viagem de Houtman esteve longe de correr bem: perdeu homens para a doença, bateu-se com governantes locais e regressou com uma carga que mal cobria os custos. Mas regressou. Provara que navios neerlandeses podiam chegar às Índias, comerciar e voltar a casa. Em dois anos, sessenta e cinco navios neerlandeses rumavam à Ásia. Em 1602, as companhias mercantis neerlandesas concorrentes tinham-se fundido na Vereenigde Oost-Indische Compagnie — a VOC, a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais —, que viria a ser a maior e mais poderosa empresa comercial que o mundo até então conhecera.

Os ingleses seguiram o mesmo guião. Hakluyt incorporou o material de Linschoten nas suas Principal Navigations e usou a informação para pressionar a rainha Isabel, demonstrando que as frotas inglesas podiam alcançar as Índias visando regiões fora do controlo efetivo das potências ibéricas. Quando a Companhia Inglesa das Índias Orientais se formou em 1600, os seus diretores usaram o Itinerario como documento primeiro de planeamento. O livro era tido por tão fiável que era entregue aos comandantes da Companhia como equipamento náutico corrente. O capitão John Saris, que comandou a Oitava Viagem em 1613, recebeu um exemplar dos diretores da EIC e registou no diário que achou os roteiros de Linschoten perfeitamente exatos ao navegar o seu navio, o Clove, ao longo da costa japonesa — quase duas décadas depois de a informação ter sido publicada, e três décadas depois de Dirck Gerritsz ter navegado originalmente a rota.

Os jesuítas, olhando das suas missões no Japão, tinham as suas próprias opiniões sobre os comentários de Linschoten. O seu Itinerario incluíra um ataque mordaz àquilo que caracterizava como a ganância rapace da Companhia de Jesus, não só no Japão mas por todas as Índias. Registara a embaixada Tenshō — a visita dos jovens nobres cristãos japoneses à Europa —, mas aproveitou a ocasião para pôr em causa os motivos dos jesuítas em vez de celebrar o seu feito. Esta postura antijesuíta refletia provavelmente as simpatias institucionais do seu patrão: o arcebispo Fonseca era dominicano, e a rivalidade entre dominicanos e jesuítas na Ásia era uma guerra eclesiástica de baixa intensidade que tingia todas as informações que passavam por Goa. Linschoten absorveu os preconceitos do seu protetor a par da papelada do seu protetor.

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O Gelo e o Silêncio

As Viagens Árticas de Linschoten e a Sua Morte em 1611

Restava a Linschoten mais uma aventura. Em 1594 juntou-se a uma expedição para achar uma Passagem do Nordeste para a Ásia por cima da Rússia — uma rota mais curta que evitaria tanto a via do Cabo, controlada pelos portugueses, como o estreito de Magalhães, controlado pelos espanhóis. Navegou como um dos dois comissários-mores ao lado do navegador Willem Barentsz, e a frota de três navios partiu de Enkhuizen e de Amesterdão com a mesma mistura de otimismo comercial e ignorância geográfica que caracterizou quase todas as expedições polares do século XVI.

O gelo deteve-os. Os navios alcançaram a costa da Nova Zembla antes de o Ártico se fechar e os obrigar a recuar. Uma segunda expedição em 1595 não correu melhor. Os diários destas viagens — ilustrados com mapas e gravuras dos povos indígenas do Norte da Rússia — foram publicados e acrescentaram à sua reputação crescente de cronista das margens do mundo. Mas a Passagem do Nordeste permaneceu gelada e fechada, e o significado estratégico da tentativa esbateu-se quando o êxito da viagem de Houtman provou que a rota do sul, pelo Cabo, funcionava perfeitamente bem.

Depois de 1595, Linschoten não voltou a participar em expedições marítimas. Fixou-se definitivamente em Enkhuizen, foi nomeado tesoureiro da vila e passou os anos que lhe restavam nas ocupações discretas e respeitáveis de um intelectual neerlandês de província. Colaborou com o médico Bernard Paludanus e com o cartógrafo Lucas Jansz Waghenaer. Traduziu para neerlandês a Historia natural y moral de las Indias de José de Acosta. Em 1609 traduziu uma carta régia espanhola respeitante à expulsão dos mouriscos. Eram as atividades de um homem que vira o mundo e se contentava agora em processá-lo da segurança de um gabinete.

A sua situação financeira, porém, não era a que um homem que remodelara a geopolítica europeia poderia ter esperado. Linschoten requereu aos Estados-Gerais uma pensão, argumentando, não sem razão, que a sua informação permitira diretamente o império comercial neerlandês na Ásia. O governo discordou. Os privilégios de publicação dos seus livros, decidiram, eram remuneração bastante. Ao homem que roubara as chaves do comércio do Oriente foi dito, na prática, que os direitos de autor haviam de chegar.

Jan Huyghen van Linschoten morreu a 8 de fevereiro de 1611, em Enkhuizen, aos quarenta e oito anos. Não deixou grande fortuna. Deixou o livro que tornou fortunas possíveis.

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A Sombra Sobre o Século Nanban

Como Linschoten Pôs Fim ao Monopólio Português no Japão

A história do período Nanban é, no fundo, uma história sobre monopólio — quem o detinha, quem o explorava, quem o quebrou. Durante quase sessenta anos os portugueses tiveram o comércio do Oriente só para si. A Nau do Trato cumpria o seu circuito anual entre Macau e Nagasáqui, os jesuítas erguiam as suas missões sob o guarda-chuva comercial do comércio da seda, e toda a estrutura assentava num pressuposto único e frágil: que nenhuma outra potência europeia possuía o saber náutico para a desafiar.

Linschoten destruiu esse pressuposto. Os roteiros que roubou e publicou deram aos neerlandeses e aos ingleses os meios técnicos para chegar à Ásia. A informação comercial que compilou deu-lhes o incentivo económico. E o retrato devastador que pintou da fraqueza colonial portuguesa — a corrupção, as guarnições esticadas para lá do possível, os vastos territórios reclamados nos mapas mas controlados por ninguém — deu-lhes a confiança de que os portugueses não seriam capazes de os deter.

As consequências, para o Japão, foram transformadoras. A chegada de mercadores neerlandeses e ingleses na primeira década do século XVII estilhaçou o monopólio católico do contacto europeu — monopólio de que dependia toda a missão jesuíta. William Adams, o piloto inglês que deu à costa em 1600 a bordo de um navio guiado por informação náutica neerlandesa derivada da obra de Linschoten, demonstrou a Tokugawa Ieyasu que o comércio europeu podia ser separado da religião europeia. Os neerlandeses, que estabeleceram a sua feitoria em Hirado em 1609, provaram-no comercialmente. Os portugueses, que não podiam — ou não queriam — fazer essa separação, acabaram expulsos. Os éditos do sakoku que fecharam o Japão à maior parte do contacto europeu foram, num sentido bem real, a consequência a jusante de cinco anos de paciente tomada de apontamentos por um escrivão neerlandês no gabinete de um arcebispo português.

Linschoten nunca viu a VOC crescer até ao colosso comercial que a sua informação ajudara a trazer ao mundo. Nunca recebeu a pensão que julgava merecer. Foi sepultado em Enkhuizen. O seu Itinerario sobreviveu. Foi reimpresso, traduzido, copiado e levado a bordo de navios durante décadas após a morte do autor. Esteve nas estantes dos diretores da VOC em Amesterdão e dos mercadores da EIC em Londres. É uma das publicações mais consequentes da história da expansão europeia.

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Fontes & Leitura Adicional

Linschoten, Jan Huyghen van. Itinerario: Voyage ofte Schipvaert van Jan Huygen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien. Amesterdão, 1596. Edição de H. Kern, publicada pela Linschoten-Vereeniging, 's-Gravenhage: Martinus Nijhoff, 1910–39. 5 vols. A edição crítica erudita do texto neerlandês original, com anotação extensa.

Linschoten, Jan Huyghen van. John Huighen Van Linschoten his Discours of Voyages into ye Easte and West Indies. Tradução de William Phillip. Londres, 1598. Reimpresso pela Hakluyt Society, 1885. A primeira tradução inglesa, feita por insistência de Richard Hakluyt.

Burnell, A.C. e P.A. Tiele (eds.). The Voyage of John Huyghen van Linschoten to the East Indies. Hakluyt Society, Primeira Série, vols. 70–71. Londres, 1885. A edição erudita de referência em língua inglesa, com notas editoriais extensas.

Parry, J.H. The Age of Reconnaissance: Discovery, Exploration and Settlement, 1450–1650. Weidenfeld & Nicolson, 1963. Situa o golpe informativo de Linschoten no contexto mais amplo da expansão marítima europeia.

Boxer, C.R. The Portuguese Seaborne Empire, 1415–1825. Hutchinson, 1969. Essencial para compreender as fraquezas estruturais do sistema colonial português que Linschoten documentou e explorou.

Subrahmanyam, Sanjay. The Portuguese Empire in Asia, 1500–1700: A Political and Economic History. Longman, 1993. Uma reavaliação abrangente do Estado da Índia que confirma muitas das observações de Linschoten sobre corrupção e sobre-extensão.

Wichmann, A. Dirck Gerritsz: Ein Beitrag zur Entdeckungsgeschichte des 16ten und 17ten Jahrhunderts. Estudo sobre o informador-chave de Linschoten, o bombardeiro de Enkhuizen que forneceu os roteiros da rota Macau–Nagasáqui.

Lach, Donald F. Asia in the Making of Europe. University of Chicago Press, 1965–93. 3 vols. O levantamento monumental do conhecimento europeu sobre a Ásia, com tratamento detalhado do papel do Itinerario na difusão de informação sobre o Japão e a China.

Massarella, Derek. A World Elsewhere: Europe's Encounter with Japan in the Sixteenth and Seventeenth Centuries. Yale University Press, 1990. Traça a linha direta que vai da informação publicada por Linschoten às viagens inglesas e neerlandesas ao Japão.

Boxer, C.R. The Christian Century in Japan, 1549–1650. University of California Press, 1951. O relato de referência da missão jesuíta, com contexto valioso sobre a rutura protestante que as publicações de Linschoten possibilitaram.

Hakluyt, Richard. The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Discoveries of the English Nation. Londres, 1598–1600. Contém material derivado de Linschoten e documenta a receção inglesa da sua informação.

Israel, Jonathan. Dutch Primacy in World Trade, 1585–1740. Clarendon Press, 1989. A história económica definitiva do império comercial neerlandês, com análise de como o Itinerario catalisou a expansão da VOC na Ásia.