A Testemunha Que Nunca Voltou a Casa: Bernardo de Kagoshima, o Primeiro Japonês Documentado a Visitar a Europa (c. 1532–1557)
Batizado em Kagoshima e enviado para ocidente por Francisco Xavier para ver a Europa cristã e dar conta do que vira, Bernardo chegou a Lisboa, a Roma e a Coimbra. Morreu em Coimbra em 1557, e só o seu nome de batismo sobreviveu.
Bernardo de Kagoshima foi um jovem samurai de Kagoshima que Francisco Xavier batizou em 1549 ou no início de 1550 e levou consigo quando deixou o Japão em 1551, enviando-o depois para ocidente para ver a Europa cristã e mais tarde dar testemunho dela aos japoneses. É o mais antigo visitante japonês na Europa registado nos documentos que sobreviveram e o primeiro japonês de que há notícia a ter entrado na Companhia de Jesus: desembarcou em Lisboa, foi recebido na ordem em janeiro de 1554, estudou em Coimbra, passou a maior parte de 1555 em Roma e morreu em Coimbra em 1557 sem regressar ao Japão.
Uma Recomendação de Goa
Porque É que Francisco Xavier Enviou Bernardo de Kagoshima à Europa
Em cartas escritas em Goa em abril de 1552, a Simão Rodrigues, em Portugal, e a Gaspar Barzaeus, que ficaria como responsável na Índia, Francisco Xavier recomendou um jovem cristão japonês chamado Bernardo. Xavier deixara o Japão em novembro de 1551, depois de pouco mais de dois anos no país, e trouxera Bernardo consigo. As cartas explicavam para que servia o jovem. Devia ver a Europa cristã para mais tarde poder «testemunhar aos japoneses o que tinham visto com os seus próprios olhos».
O plural é do próprio Xavier: a carta recomenda Bernardo juntamente com Mateus, um convertido de Yamaguchi. As cartas dão também o raciocínio de Xavier. Encontrara os japoneses convencidos, como ele próprio disse, de que nenhum outro povo valia grande coisa ao lado deles. O historiador Kōso Toshiaki leu o plano à luz do provérbio japonês da rã no poço (i no naka no kawazu, 井の中の蛙), que toma as paredes do seu poço pelos limites do mundo. Segundo essa leitura, um convertido japonês que tivesse visto a Europa poderia corrigir essa visão de uma forma que um missionário estrangeiro não conseguiria. A mesma carta acrescenta um segundo propósito, em sentido inverso: Xavier esperara enviar a Portugal um par de bonzos letrados, para que os europeus pudessem julgar por si mesmos quão inteligentes e subtis eram os japoneses, mas eles não quiseram vir.
Bernardo chegou de facto à Europa. Desembarcou em Lisboa, entrou na Companhia de Jesus, estudou em Coimbra, passou a maior parte de 1555 em Roma e morreu em Coimbra em 1557, sem voltar a ver o Japão. É o mais antigo visitante japonês na Europa registado nos documentos que sobreviveram, e o primeiro japonês de que há notícia a ter entrado na Companhia de Jesus.
Quase tudo o que se sabe dele passa por mãos jesuítas. O seu nome japonês não ficou registado em nenhuma fonte que tenha sobrevivido; aparece como Bernardo, como Bernardo de Kagoshima ou como Bernardo de Satsuma. Nenhuma carta do seu próprio punho foi identificada com segurança. O texto japonês caligráfico de uma cópia, feita em Coimbra em 1555 ou 1556, da concessão de Ōuchi Yoshinaga à missão em 1552 é provavelmente seu: assim pensava Schurhammer, e Ruiz-de-Medina, notando que nenhum outro japonês estava então na Europa, atribui-lho. Os juízos sobre o seu caráter que circulam na bibliografia vêm de Xavier, dos jesuítas que o receberam na Europa e de Alessandro Valignano, que escreveu décadas mais tarde. São as apreciações de homens que o tinham escolhido e formado e que desejavam que o seu exemplo edificasse outros, e são aqui apresentadas como deles.
Um Jovem Samurai de Satsuma
O Batismo de Bernardo em Kagoshima e a Questão do Primeiro Convertido de Xavier
A missão de onde ele saiu desembarcou em Kagoshima, na província de Satsuma, no extremo sul de Kyūshū, no 22.º dia do sétimo mês de Tenbun 18 (15 de agosto de 1549). O grupo era pequeno. Xavier viajava com o padre espanhol Cosme de Torres, o irmão leigo espanhol Juan Fernández e um homem de Satsuma chamado Anjirō, que fora batizado em Goa em 1548 como Paulo de Santa Fé. Anjirō servia de intérprete e catequista, e levou a sua própria casa ao batismo logo no início da estadia em Kagoshima. A história mais ampla da chegada da missão e dos seus dois anos no Japão é contada no artigo sobre a missão japonesa de Francisco Xavier.
Bernardo era um jovem samurai de Kagoshima, membro da classe guerreira que servia os senhores Shimazu de Satsuma. A sua idade assenta num único número, 18 anos, indicado pelos historiadores Léon Bourdon e Alexandra Curvelo, e daí se deduziu um ano de nascimento por volta de 1532.
Xavier batizou-o em Kagoshima em 1549 ou no início de 1550, dando-lhe o nome de Bernardo. Se foi o primeiro, o segundo ou simplesmente um dos primeiros convertidos depende de qual jesuíta faz a contagem e do que está a contar. Pedro de Ribadeneyra, que o conheceu mais tarde em Roma, chamou-lhe el primer hombre que dentro del Japón recibió el santo bautismo, o primeiro homem batizado no Japão. Jerónimo Nadal, que tratou da sua admissão na Companhia, descreveu-o, numa versão inglesa, como «o segundo convertido feito por Xavier no Japão». Luís Gonçalves da Câmara colocou-o entre os primeiros que Xavier ali converteu. São categorias diferentes. Anjirō, batizado em Goa, não pode ser contado entre os batizados no Japão, pelo que não faz de Bernardo o segundo nessa contagem. A casa de Anjirō, por outro lado, foi batizada em Kagoshima logo no início da estadia, e nenhuma carta regista a ordem desses primeiros batismos de Kagoshima. Os ordinais de Nadal e de Ribadeneyra não podem, por isso, ser conciliados numa única contagem sem se saber exatamente quem cada um incluía.
Kagoshima não se manteve hospitaleira por muito tempo. No relato jesuíta, Shimazu Takahisa começou por permitir que os missionários pregassem. Quando os navios portugueses que esperava atrair foram para outros portos e o clero budista o pressionou, proibiu novas conversões. Os ataques públicos de Xavier à moral dos monges já tinham endurecido a oposição destes. No fim de agosto de 1550, Xavier deixou Kagoshima. Anjirō ficou com os convertidos. Bernardo foi com Xavier.
Hirado, Hakata e uma Má Audiência em Yamaguchi
Bernardo, Companheiro de Xavier de Hirado a Yamaguchi
A primeira paragem foi Hirado, ao largo da costa noroeste de Kyūshū, onde havia navios portugueses no porto e o senhor, Matsuura Takanobu, acolheu os jesuítas. Cosme de Torres ficou em Hirado. Xavier seguiu com Fernández e Bernardo num barco japonês.
Em Hakata, a cidade mercantil da costa norte de Kyūshū, Xavier voltou a repreender os monges de um templo zen Rinzai. Dali, os três passaram a Honshū e dirigiram-se a Yamaguchi, sede de Ōuchi Yoshitaka, então um dos senhores mais poderosos do Japão ocidental. Um homem chamado Uchida acolheu-os e tornou-se o primeiro convertido da cidade, batizado como Thomé. Xavier e Fernández pregavam duas vezes por dia nas esquinas.
Por intermédio de Naitō Okimori, vassalo dos Ōuchi, obtiveram uma audiência com o próprio Yoshitaka. Correu mal. Fernández leu de um rolo que condenava a sodomia, e Yoshitaka tomou a passagem como dirigida a si. Os visitantes foram despedidos, e os relatos jesuítas registam que temeram pela vida. Os convertidos em Yamaguchi nesta primeira visita foram poucos. O episódio, e a importância posterior da cidade para a missão, são tratados em pormenor no artigo sobre os portugueses em Yamaguchi.
Os relatos jesuítas registam pouco do que Bernardo fez nessas semanas para além da sua presença. O que registam é o seu trabalho na estrada: serviu de carregador, e a etapa seguinte da viagem mostra o que isso significava.
Neve no Caminho de Miyako
Bernardo na Viagem de Inverno de Xavier a Quioto, em dezembro de 1550
Em dezembro de 1550, Xavier, Fernández e Bernardo deixaram Yamaguchi rumo à capital. Xavier esperava chegar ao imperador, Go-Nara, e às autoridades do Enryakuji, no monte Hiei, o grande mosteiro Tendai sobranceiro à cidade. Os relatos jesuítas descrevem a primeira parte da viagem, a pé até Iwakuni, com neve até aos joelhos e ribeiros até à cintura. Dali seguiram de barco até Sakai, a cidade mercantil da baía de Osaka, onde um mercador chamado Hibiya lhes deu hospitalidade. Em Miyako, como então se chamava Quioto, alojaram-se com a família Konishi.
Miyako fora arruinada por anos de guerra, e a corte imperial tinha pouco poder. Os visitantes tinham vindo sem presentes e vestidos como mendicantes. Nos 11 dias que ali passaram, não conseguiram chegar nem ao imperador nem ao Enryakuji.
O papel de Bernardo nesta viagem é o que de mais concreto ficou registado sobre ele no Japão. Levava um saco de arroz torrado, a provisão do grupo para o caminho; os vasos da missa tinham ficado em Hirado. Xavier disse depois, em Goa, que Bernardo o mantivera vivo durante boa parte do caminho de Miyako com aquele arroz, e Bernardo, que dormia ao lado de Xavier, contou mais tarde a Ribadeneyra, em Roma, que Xavier invocava o nome de Jesus até durante o sono.
Um Templo Vazio Chamado Daidōji
A Segunda Estadia em Yamaguchi, em 1551: O Daidōji, Lourenço e Bernardo
A segunda estadia em Yamaguchi, de cerca de abril a setembro de 1551, decorreu noutros termos. Xavier, que fora a Miyako como mendicante, voltou a Yamaguchi como enviado, em vestes finas; os relatos registam a mudança de abordagem sem registarem as razões que o levaram a ela. Trazia presentes do Governador da Índia: um relógio de carrilhão, um instrumento de teclado, óculos, tecidos finos e vinho. Ōuchi Yoshitaka, que despedira os missionários poucos meses antes, concedeu-lhes então liberdade para pregar e um templo vazio, o Daidōji (大道寺), como residência e igreja.
A concessão está documentada em duas fases que facilmente se confundem. A edição crítica dos primeiros documentos da missão do Japão preparada por Juan Ruiz-de-Medina, Documentos del Japón, identifica o templo como o Daidōji e distingue a concessão original feita por Ōuchi Yoshitaka em 1551 da sua confirmação por Ōuchi Yoshinaga em 1552. Yoshinaga foi o sucessor instalado depois do golpe de setembro de 1551 que pôs fim ao governo e à vida de Yoshitaka, pelo que a confirmação pertence a um novo senhor e a um ano posterior.
O Daidōji tornou-se palco de disputas diárias. Entre os que nelas se envolveram estava um menestrel cego que Xavier batizou em 1551 como Lourenço, um batismo que a edição de Ruiz-de-Medina sustenta. A carreira posterior de Lourenço como pregador da missão é contada no artigo sobre o Irmão Lourenço. Os relatórios jesuítas atribuíram a esta segunda estadia em Yamaguchi várias centenas de batismos; o número habitualmente indicado é de cerca de 500 e, como as outras contagens de convertidos destes anos, provém das contas dos próprios missionários.
Os relatos jesuítas nada registam de específico sobre o papel de Bernardo no Daidōji. Permaneceu na casa de Xavier durante toda a segunda estadia em Yamaguchi e acompanhou-o quando os assuntos da missão passaram para Bungo.
Uma Nau em Funai
Como Bernardo Deixou o Japão com Xavier, a Partir de Bungo, em 1551
No fim de agosto de 1551 chegou a Yamaguchi a notícia de que um navio português comandado por Duarte da Gama aportara em Bungo, na costa oriental de Kyūshū. Xavier foi a Funai, a capital dos Ōtomo, onde Ōtomo Yoshishige, mais tarde conhecido como Sōrin, então com 21 anos, o recebeu com honras.
Nem todos foram para Bungo. A edição de Ruiz-de-Medina situa Cosme de Torres e Juan Fernández em Yamaguchi durante a convulsão de setembro de 1551, depois de Xavier ter partido para Funai. Torres, que ficara em Hirado no ano anterior, juntara-se entretanto à comunidade de Yamaguchi, e ele e Fernández ficaram encarregados dela durante a violência do golpe. Bernardo foi para Bungo com Xavier e deixou o Japão com ele.
O navio partiu de Okinohama, em Bungo, em novembro de 1551. Ōtomo Yoshishige enviou no navio um emissário ao Vice-Rei em Goa. O grupo de Xavier incluía outros cristãos japoneses além de Bernardo. As fontes jesuítas nomeiam Mateus, um convertido de Yamaguchi, e dois homens de Kagoshima batizados em Goa com Anjirō em 1548, João e António, que viriam a servir de intérpretes aos missionários. Com o emissário de Ōtomo, Schurhammer conta cinco japoneses no navio de Duarte da Gama. Bernardo era um dos vários japoneses da comitiva de Xavier.
Goa e o Caminho Mais Longo
De Goa a Lisboa pelo Cabo da Boa Esperança: A Viagem de Bernardo para Portugal
A rota descia ao longo da costa da China até Malaca e seguia para a Índia. Xavier estava em Cochim no fim de janeiro de 1552, e o grupo chegou a Goa em fevereiro. Bernardo alojou-se no Colégio de São Paulo, o seminário jesuíta de Goa que formava rapazes e jovens de toda a Ásia. Mateus de Yamaguchi morreu ali em 1552. António regressou ao Japão com o jesuíta Baltasar Gago, como seu intérprete, e desembarcou em Kagoshima em agosto de 1552; João fê-lo em 1556, com Belchior Nunes Barreto.
Bernardo seguiu na direção oposta. Xavier preparava-se agora para ir à China, e Bernardo foi enviado para a Europa com as suas recomendações. Xavier deixou a Índia em 1552 e morreu na ilha de Shangchuan, ao largo da costa chinesa, em dezembro desse ano. Bernardo nunca mais o voltou a ver.
A viagem para Portugal contornava o Cabo da Boa Esperança pela rota das armadas portuguesas da Índia, que partiam da Índia por volta da passagem do ano para apanhar a monção de nordeste e chegavam a Lisboa, se tudo corresse bem, no fim do verão ou no outono. Os jesuítas que o receberam em Lisboa escreveram que chegou doente e esgotado da viagem. O padrão das navegações explica a espera. Bernardo passou a maior parte de um ano em Goa: ainda lá estava a 30 de novembro de 1552, quando Gaspar Barzaeus escreveu que ele estava prestes a partir com o Irmão André Fernandes, que Xavier enviava à Europa para dar conta da missão. Zarparam no início de 1553 e chegaram a Lisboa em setembro desse ano. Curvelo indica setembro de 1552, um ano cedo demais.
Um Noviço em Coimbra
O Primeiro Jesuíta Japonês: A Admissão de Bernardo na Companhia em janeiro de 1554
A sua entrada na Companhia de Jesus está tão bem documentada como a sua chegada. Jerónimo Nadal era então comissário para as províncias ibéricas da Companhia, e a decisão de receber Bernardo foi tomada sob a sua autoridade em dezembro de 1553. O aparato editorial da edição de Ruiz-de-Medina, citando a crónica de Juan de Polanco, situa a admissão propriamente dita no início de 1554. Uma carta de Diego Mirón datada de 14 de fevereiro de 1554 já descreve Bernardo como noviço em Coimbra. A data mais bem fundamentada para a sua entrada é, portanto, janeiro de 1554, sendo 1553 o ano da deliberação e da autorização. Valignano, que escreveu muito mais tarde, disse que ele fora recebido «pelo Nosso Padre Inácio», o que muito provavelmente significa recebido na ordem durante o generalato de Inácio. A expressão não implica necessariamente que Inácio o tenha admitido pessoalmente; Bernardo estava então em Portugal e Inácio em Roma.
Isso fez de Bernardo o primeiro japonês de que há notícia a entrar na Companhia. No Japão, Oliveira e Costa aponta Paulo de Bungo e o Irmão Lourenço como os primeiros japoneses admitidos, por volta de 1556. A edição de Ruiz-de-Medina trata com cautela a admissão de Lourenço por essa data, porque as formas das primeiras admissões japonesas não correspondiam com nitidez à sequência europeia de noviciado e votos, e a associação à missão era coisa diferente da pertença formal. Estas distinções explicam por que razão Lourenço é por vezes chamado o primeiro irmão jesuíta japonês: a afirmação diz geralmente respeito à admissão dentro do Japão, ao passo que Bernardo foi recebido em Portugal.
Em Coimbra, Bernardo estudou latim e humanidades. A intenção, coerente com as cartas de Xavier, era prepará-lo para regressar ao Japão como pregador nativo capaz de falar a partir do que vira. Coimbra era a principal casa de estudos jesuíta em Portugal e um viveiro de recrutamento para as Índias; entre os que ali estavam nos mesmos anos contava-se Pedro Gómez, que mais tarde governaria a missão do Japão como vice-provincial. Pouco se registou sobre os seus progressos nos estudos; em Coimbra, surge na documentação como um noviço mencionado nas cartas dos seus superiores.
O Ano dos Três Papas
A Estadia de Bernardo em Roma em 1555 e o Seu Encontro com Inácio de Loyola
Em 1554, Bernardo partiu para Roma. Tal como Schurhammer o reconstituiu a partir das cartas jesuítas, o percurso seguiu por terra através de Espanha, passando por Salamanca, Segóvia e Barcelona, e depois por mar até Nápoles. Chegou a Roma a 7 de janeiro de 1555.
Em Roma, conheceu Inácio de Loyola na casa professa da Companhia. Pedro de Ribadeneyra, então um jovem jesuíta e mais tarde o primeiro biógrafo de Inácio, foi seu confessor e companheiro, e é Ribadeneyra quem deixou a descrição dele como o primeiro homem batizado no Japão.
Chegou num ano de invulgar rotatividade na corte papal. Júlio III morreu a 23 de março de 1555. Marcelo II foi eleito a 9 de abril e morreu a 1 de maio. Paulo IV foi eleito a 23 de maio. O relato de Kōso regista que Bernardo teve uma audiência com Paulo IV. Esse relato sustenta a sequência geral da visita a Roma, mas a audiência em si, a sua data e o que nela se disse não foram associados a nenhum documento datado.
Deixou Roma a 23 de outubro de 1555 com Luís Gonçalves da Câmara, que o levava de volta a Portugal; Schurhammer indica 18 de outubro.
Há ainda um elemento que pertence ao período romano. Nadal, numa carta de 1568, descreve umas linhas em japonês e em italiano, da mão de Bernardo, que Friedrich von Wirsberg, então já príncipe-bispo de Würzburg, trouxera do seu próprio tempo em Roma, guardava com devoção e lhe mostrou em 1566. A folha não sobreviveu: quando Schurhammer perguntou por ela, já não estava no arquivo diocesano de Würzburg, que perdeu 60 por cento do seu acervo a 16 de março de 1945, e a atribuição assenta no relato de Nadal sobre o que o bispo lhe disse.
Quaresma em Coimbra
A Morte de Bernardo em Coimbra em 1557 e o Epitáfio de Valignano
A viagem de regresso passou por Florença, Pisa e Génova, depois por mar até Alicante e por terra através de Múrcia até Portugal. Bernardo retomou os estudos em Coimbra e ali adoeceu gravemente.
As fontes dão a sua morte sob três formas que convém manter separadas. Kōso situa-a no fim de fevereiro ou no início de março de 1557. Curvelo coloca-a na primavera de 1557. Schurhammer, numa nota, diz que morreu na Quaresma; uma carta escrita do colégio em maio de 1557 situa a sua doença e a sua morte nas semanas anteriores à Quaresma, que nesse ano começou a 3 de março. Foi sepultado em Coimbra.
Se o ano de nascimento por volta de 1532 estiver certo, tinha uns 25 anos. Deixara o Japão pouco mais de cinco anos antes e estava na Europa desde 1553.
A Historia del principio y progresso de la Compañía de Jesús en las Indias Orientales de Valignano, escrita na década de 1580, dá-lhe um epitáfio. Bernardo, nas palavras de Valignano, foi «um homem prudente e virtuoso» que morreu no colégio de Coimbra con mucha edificación, para grande edificação de todos. A expressão é convencional nos relatos jesuítas de uma boa morte, e regista o que a ordem quis dizer do seu fim.
A Missão por Cumprir
O Legado de Bernardo: A Embaixada Tenshō, os Irmãos Jesuítas Japoneses e Arai Hakuseki
O plano de Xavier exigia um regresso, e Bernardo não regressou. Nenhum público japonês o ouviu descrever Lisboa ou Roma, e o testemunho que Xavier quisera para a missão nunca chegou a ser dado. Curvelo defendeu que a sua morte adiou a ideia de Xavier de uma troca de testemunhas nos dois sentidos entre o Japão e a Europa até à Embaixada Tenshō de 1582–90, quando quatro jovens cristãos japoneses foram enviados à Europa e trazidos de volta.
O organizador dessa embaixada, Alessandro Valignano, foi também o autor do epitáfio de Bernardo, e conhecia a história anterior. Não se sabe se modelou conscientemente a embaixada pela experiência de Xavier. As diferenças entre as duas viagens estão documentadas. Bernardo viajou como convertido individual, sob a recomendação de um jesuíta, sem cartas diplomáticas, e deixou poucos vestígios fora da correspondência jesuíta. Os enviados Tenshō foram apresentados como representantes de senhores cristãos de Kyūshū, foram recebidos com cerimónia e regressaram ao Japão para contar o que tinham visto.
Oliveira e Costa leu Bernardo em chave institucional, como o precursor dos irmãos japoneses que em 1590 constituíam metade dos jesuítas da missão do Japão. Essa leitura coloca-o no início de uma linha que passou por Lourenço e Paulo de Bungo até aos irmãos e catequistas japoneses de que a missão veio a depender. A linha não foi uma sucessão direta: Bernardo foi recebido em Portugal e ali morreu, e os irmãos japoneses da década de 1580 foram recrutados e formados no Japão. O que os liga é uma intenção já visível nas cartas de Xavier: a de que os próprios cristãos japoneses levariam a fé ao Japão.
Do lado japonês, o registo está quase vazio. Não foi identificado nenhum relato japonês contemporâneo sobre Bernardo. O que mais se aproxima de uma memória japonesa surge século e meio mais tarde, e de forma deturpada. Em 1709, o erudito e conselheiro do xogum Arai Hakuseki interrogou o padre missionário siciliano Giovanni Battista Sidotti, que entrara ilegalmente no Japão e fora levado para Edo. Em Seiyō kibun (西洋紀聞, «Coisas Ouvidas sobre o Ocidente»), Hakuseki registou o que Sidotti lhe contou de um enviado do senhor de Bungo que levou um menino a Roma para entrar na ordem e ali morreu quando estava para regressar; foi o próprio Hakuseki quem deu ao enviado o nome de Ueda Genza e o situou no tempo da Embaixada Tenshō, e Kōso Toshiaki sugeriu que o homem que morreu na Europa é uma memória de Bernardo. O próprio nome japonês de Bernardo não aparece nesse relato nem em nenhuma outra fonte conhecida.
Fontes & Leitura Adicional
Bourdon, Léon. La Compagnie de Jésus et le Japon, 1547–1570. Paris: Fondation Calouste Gulbenkian, 1993. A história de referência das duas primeiras décadas da missão; as suas páginas sobre Bernardo dão a sua idade, a sua admissão e a sua morte.
Curvelo, Alexandra. "Coimbra e a missão do Japão no século XVI numa perspetiva histórico-artística." In Visto de Coimbra: O Colégio de Jesus entre Portugal e o Mundo, edited by Carlota Simões, Margarida Miranda and Pedro Casaleiro, 175–192. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020. Situa Bernardo na história do colégio de Coimbra e dos seus laços com a missão do Japão, e vê na sua morte prematura o adiamento da troca que a Embaixada Tenshō viria a realizar.
Kōso, Toshiaki (髙祖敏明). "Misshon shō ka shiviru anbasadā ka: Tenshō ken'ō shisetsu no rekishiteki ichi o kangaeru" (ミッション・ショーかシヴィル・アンバサダーか―天正遣欧使節の歴史的位置を考える―). Jōchi Daigaku Kyōikugaku Ronshū 52 (2018): 17–34. Lê o plano de Xavier à luz do provérbio da rã no poço e acompanha Bernardo desde Kagoshima até Roma e Coimbra, como precursor da Embaixada Tenshō.
Oliveira e Costa, João Paulo. "The Misericórdias among Japanese Christian Communities in the 16th and 17th Centuries." Bulletin of Portuguese-Japanese Studies 5 (2002): 67–79. Conta os membros japoneses da missão jesuíta, metade do total em 1590, e nomeia Bernardo como o primeiro japonês a vir à Europa.
Ruiz-de-Medina, Juan G., ed. Documentos del Japón, 1547–1557. Rome: Instituto Histórico de la Compañía de Jesús, 1990. A edição crítica que identifica o templo de Yamaguchi como o Daidōji, separa a concessão de Yoshitaka de 1551 da confirmação de Yoshinaga de 1552, situa Torres e Fernández em Yamaguchi em setembro de 1551 e fornece os documentos em que assentam a admissão de janeiro de 1554 e o batismo de Lourenço.
Schurhammer, Georg. Francis Xavier: His Life, His Times. Vol. 4, Japan and China, 1549–1552. Translated by M. Joseph Costelloe. Rome: Jesuit Historical Institute, 1982. A reconstituição de referência, dia a dia, das viagens japonesas de Xavier, da partida de Bungo e da travessia para a Índia, na qual se apoia o relato dos anos de Bernardo com Xavier. A sua nota sobre Bernardo (p. 65 n. 2) acompanha a sua vida posterior, de Lisboa até à sua morte em Coimbra.
Citar esta página
Nanban.pt. «A Testemunha Que Nunca Voltou a Casa: Bernardo de Kagoshima, o Primeiro Japonês Documentado a Visitar a Europa (c. 1532–1557)». Última atualização a 25 de outubro de 2026. https://nanban.pt/pt/articles/bernardo-of-kagoshima/.
@misc{nanban-bernardo-of-kagoshima,
author = {Nanban.pt},
title = {A Testemunha Que Nunca Voltou a Casa: Bernardo de Kagoshima, o Primeiro Japonês Documentado a Visitar a Europa (c. 1532–1557)},
year = {2026},
url = "https://nanban.pt/pt/articles/bernardo-of-kagoshima/",
note = {Last modified 2026-10-25}
}

