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Tools and regalia: a short survey of the presence of firearms in Edo Japan

Galindo García, Arturo (2026). “Tools and regalia: a short survey of the presence of firearms in Edo Japan”, International Journal of Asian Studies.

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DOI: doi.org/10.1017/S1479591426100667

A nossa apreciação Este estudo conciso de 16 páginas reinterpreta a chamada proibição das armas de fogo no período Edo não como um desarmamento, mas como uma hábil redefinição social em que as armas de fogo se tornaram ferramentas agrícolas para o povo comum e insígnias rituais para a elite.

A narrativa corrente trata a famosa proibição das armas de fogo do período Edo como uma história de desarmamento: o xogunato Tokugawa teria despojado o campesinato das suas armas para garantir a paz, deixando o Japão com uma sociedade desmilitarizada até à chegada das potências ocidentais. Esta leitura pressupõe que, terminadas as guerras civis, a arma de fogo desapareceu da vida quotidiana, relegada para as vitrinas dos museus ou esquecida nos sótãos. Apresenta o século XVII como uma rutura nítida entre a era do samurai e a era do camponês, em que a arma foi simplesmente retirada da equação.

Galindo García rejeita este binarismo. O estudo defende que o regime Tokugawa não eliminou as armas de fogo, antes redefiniu a sua função social, transformando-as em objetos de dupla finalidade que sustentaram a estabilidade do Estado. Em vez de uma proibição, o xogunato montou um sistema em que o povo comum conservava as armas como ferramentas agrícolas para a caça e o controlo de pragas, enquanto a classe guerreira as transformava em insígnias rituais. Esta mudança permitiu ao regime manter o monopólio do significado da violência sem precisar de confiscar cada arma física. O texto mostra que a «proibição» era, na verdade, um contrato social sofisticado: os camponeses podiam possuir armas desde que as usassem na lavoura, e só a elite guerreira as podia possuir como armas.

Os indícios desta redefinição assentam em marcos regulamentares concretos e no registo material do uso das armas. O autor ancora o argumento no monopólio de Nagahama de 1607, que designou um único centro de produção para todas as armas de fogo e toda a pólvora, controlando de facto a cadeia de abastecimento em vez de a destruir. Apesar destes controlos rigorosos, o estudo cita uma estimativa segundo a qual entre 150 000 e 200 000 armas de fogo continuaram em circulação durante todo o período Edo, na maioria peças mais antigas da era Sengoku reaproveitadas para usos não militares. Para o homem comum, a arma tornou-se o odoshi teppō, um instrumento para afugentar javalis e veados, uso reconhecido por lei a partir de 1657 e regulamentado a nível nacional pelas «Leis da Compaixão» de Tokugawa Tsunayoshi. Quando a produção oficial não conseguiu satisfazer a procura rural, as autoridades acabaram por optar por registar, em vez de punir, as «armas escondidas» (kakushi teppō), o que sugere que o Estado punha a utilidade à frente da proibição total.

Para a elite, a transformação foi igualmente deliberada. O estudo descreve como a classe guerreira (bushi) fez da pontaria uma arte marcial de alto estatuto (hōjutsu), produzindo mais de 200 manuais secretos entre 1608 e 1868. Não eram apenas guias de treino: fizeram da pontaria uma arte que só a classe guerreira podia dominar. O ritual do teppō hajime de 1620, introduzido por Tokugawa Hidetada, institucionalizou o disparo cerimonial de armas nas celebrações do Ano Novo, consolidando o papel da arma de fogo como símbolo da autoridade xogunal e não como instrumento de combate. O texto sublinha como os cortejos dos daimyō no sistema de sankin kōtai usavam estas armas como espetáculo, em que a exibição do poder de fogo reforçava a posição social. As armas de fogo tornaram-se heranças de família e presentes de casamento, valorizadas como sinais da autoridade militar dos seus donos e não pela sua capacidade de matar.

Esta abordagem ajuda a explicar por que razão a inovação tecnológica estagnou no Japão. Como o valor da arma passou da eficácia no campo de batalha para a exibição ritual, não houve pressão para adotar tecnologias mais recentes, como o fecho de pederneira. O estudo observa que as tentativas de modernização no final do período Edo foram «demasiado pouco, demasiado tarde», deixadas sobretudo à iniciativa privada por um xogunato demasiado fraco para financiar o rearmamento. O autor faz esta síntese a partir dos estudos sobre os registos dos domínios, os éditos e crónicas como o Teppōki, mostrando que o poder do Estado residia no controlo da narrativa da arma, e não apenas do próprio metal.

O artigo é mais útil para leitores que já conhecem a cronologia básica da história japonesa, das guerras civis do período Sengoku à paz de Edo, e querem compreender os mecanismos dessa paz. Pressupõe familiaridade com termos como sankin kōtai e bushi; não oferece glossário, mas dá um contexto claro no próprio texto. Serve de complemento conciso aos nossos artigos sobre a chegada das armas de fogo em 1543 e a ascensão do xogunato Tokugawa, preenchendo o intervalo entre a introdução do arcabuz de mecha e a Restauração Meiji. Com apenas 16 páginas, lê-se depressa e evita o jargão académico, concentrando-se nas mudanças práticas e simbólicas que definiram uma época. Não substitui um estudo aprofundado de arquivo, mas oferece um quadro incisivo e coerente a quem tenha curiosidade em saber como uma sociedade pode manter as suas armas sem manter as suas guerras.

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Recenseado pela redação de Nanban.pt a 2026-10-05.

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