Capítulo Um

O Homem de Zamora

Em finais dos anos 1570, num convento franciscano dos Países Baixos devastados pela guerra, um veterano espanhol vestido de hábito castanho procurava um canto sossegado onde rezar. Naquele preciso momento os Países Baixos eram um dos lugares mais ruidosos da Cristandade: a Guerra dos Oitenta Anos transformara os campos flamengos numa catástrofe contínua de cercos, massacres, motins e atrocidades religiosas a uma escala que tornava a vida contemplativa bastante difícil de sustentar. O antigo soldado, que combatera nessas campanhas como parte dos terços do Duque de Alba, começava a suspeitar que tinha apenas trocado um campo de batalha por outro.

O seu nome, naquele momento, era Frei Juan de Zamora, em homenagem à vila espanhola onde nascera. Servira numa das formações militares mais celebradas da Europa, os terços espanhois, espinha dorsal da máquina de guerra dos Habsburgos, a infantaria que humilhara os franceses em Pavia e que, uma geração depois, se sangraria até à exaustão em Rocroi. Pela sua própria narrativa posterior, fizera parte de um esquema falhado, por volta de 1574, para surpreender e tomar Londres num golpe de mão, um daqueles planos audaciosos espanhois que apareciam periodicamente na era de Isabel I e desapareciam de novo sem causarem tantos estragos quanto poderiam. Em suma, vivera a vida de um cruzado católico em campanha.

E depois decidira parar.

A transição do terço para a vida franciscana não é suave. Os terços eram as tropas de choque de um império global; os franciscanos eram os sucessores de um santo do século XIII que pregara a pobreza aos pássaros. As duas instituições partilhavam uma teologia, mas não uma visão do mundo. O antigo soldado passou alguns anos num convento flamengo, achou a experiência insustentável no meio do fogo de canão e regressou a Espanha. Em 1592 instalara-se no convento de San José em Salamanca, e os seus irmãos de hábito, ao notarem que este frade em particular abraçava o voto de pobreza com uma seriedade que beirava o aterrador, deixaram cair discretamente o apelido Zamora e rebatizaram-no Frei Juan Pobre.

Pobre. O Pobre.

Era o tipo de alcunha que pegava por ser exata. Juan Pobre passaria o resto da vida a recusar a ordenação, a recusar cargos, a recusar tudo o que pudesse elevá-lo acima do estatuto de simples irmão leigo. Atravessaria o Atlântico e o Pacífico várias vezes em serviço da Coroa, recrutaria dezenas de missionários em Espanha, faria lobby junto da cúria papal em Roma, sobreviveria a naufrágios e a execuções e à atenção pessoal de Toyotomi Hideyoshi, e o Rei Filipe III acabaria por mandar pintar o seu retrato após a sua morte. Nada disto o convenceria a deixar que alguém o chamasse outra coisa além de o Pobre.

Não era, por qualquer medida razoável, uma figura representativa da sua época. Mas é a lente perfeita através da qual observar o que aconteceu quando as ordens mendicantes espanholas chegaram ao Japão.

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Capítulo Dois

A Cerca do Papa

Para perceber o que Juan Pobre e os seus irmãos de hábito estavam, em primeiro lugar, a fazer no Japão, ajuda perceber o que ali não deviam estar a fazer.

Em 1585, o Papa Gregório XIII emitira um breve intitulado Ex pastoralis officio. O documento era, à sua maneira, uma pequena obra-prima de construção de cercas eclesiásticas. Reservava toda a atividade missionária no Japão à Companhia de Jesus. Nenhum franciscano, nenhum dominicano, nenhum agostinho, nenhum frade de qualquer ordem que não fosse a dos jesuítas podia entrar legalmente no Japão para pregar, administrar sacramentos ou fundar uma missão. O breve tinha sido pressionado pelo Visitador jesuíta Alessandro Valignano, história contada em pormenor no artigo sobre o próprio Visitador, e refletia uma teoria de missão que Valignano passara anos a aperfeiçoar.

A teoria era esta: o Japão era uma civilização demasiado sofisticada, demasiado orgulhosa, demasiado frágil internamente para tolerar seitas cristãs concorrentes. Uma ordem, uma estratégia, uma voz. Lança-se uma segunda ordem europeia no caldeirão, com hábitos diferentes, regras diferentes, superiores diferentes, ênfases teológicas diferentes, e os japoneses repararam de imediato na contradição, e toda a missão se desfaria.

Os jesuítas, tendo apresentado este argumento a Roma, obtiveram o monopólio. Durante algum tempo, ele aguentou-se.

O problema era que o mundo continuava a mudar. Em 1580, a Coroa portuguesa passara, através de uma complicada disputa sucessória envolvendo um rei desaparecido e um cardeal morto, para Filipe II de Espanha. Juridicamente os dois impérios permaneciam separados, Portugal conservava a sua própria administração, a sua própria estrutura eclesiástica, o seu próprio padroado ultramarino, mas o efeito prático era que Filipe governava agora os dois hemisférios. E os súbditos espanhois de Filipe, em particular os colonos das Filipinas, olhavam para o monopólio jesuíta sobre o Japão, que era uma empresa portuguesa conduzida através de Macau, e viam uma oportunidade de negócio deliberadamente mantida fora do seu alcance.

As Filipinas tinham sido fundadas nos anos 1560 como o posto avançado espanhol no extremo ocidental do Pacífico, o terminal do comércio da galera de Manila. Eram povoadas por soldados, comerciantes e um pequeno exército de frades espanhois, franciscanos, dominicanos e agostinhos, que tinham vindo evangelizar a Ásia e se viam confinados ao arquipélago por um decreto papal que para eles não fazia sentido nenhum. O Japão estava ali ao lado. Podia-se estar de pé na praia de Manila e apontar aproximadamente na sua direção. Por que é que tudo aquilo havia de ser dos jesuítas portugueses?

A resposta de Roma foi: porque assim o dissemos. A resposta de Manila foi: lá iremos ver.

E então, em 1591, uma oportunidade caiu do céu.

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Capítulo Três

A Carta do Taikō

Toyotomi Hideyoshi, tendo terminado o trabalho de unificar o Japão e iniciado a tarefa bem mais ambiciosa de tentar conquistar a Coreia e a China, dava por si num estado de espírito geopoliticamente expansivo. Despachou uma carta ao governador espanhol das Filipinas, Gómez Pérez Dasmariñas, exigindo um juramento de vassalagem e ameaçando, com a ameaça despreocupada de quem acabara de pôr trezentos mil soldados em campanha, enviar navios de guerra contra Manila se a colónia se recusasse.

A carta foi entregue por um indivíduo chamado Harada Kiemon, que se apresentava como enviado de Hideyoshi mas que Dasmariñas suspeitou de imediato ser um freelancer não autorizado. A exigência era escandalosa. A ameaça era credível. O governador precisava de tempo.

A sua solução foi uma embaixada. Mais precisamente, uma embaixada dominicana, encabeçada por um homem cuja presença em Manila naquele ano em particular foi um daqueles acasos discretos que remodelam a história.

Frei Juan Cobo, por vezes grafado Cobos nas fontes espanholas, era um dos europeus mais invulgares na Ásia. Era um frade dominicano, o que fazia dele membro de uma ordem largamente excluída da missáo do Japão pelo monopólio jesuíta, mas a sua especialidade não era o Japão. Era a China. Cobo era um sinólogo de notabilidade rara: dominava mais de três mil carateres chineses, traduzira para castelhano um texto confucionista chinês (o Mingxin baojian ou Beng Sim Po Cam), e era visto em Manila como o europeu que melhor compreendia a civilização do outro lado do mar.

Dasmariñas precisava de alguém que pudesse falar com Hideyoshi com autoridade, que pudesse representar a Coroa espanhola com a gravidade apropriada, e que pudesse, sobretudo, arrastar as negociações por tempo suficiente para deixar Manila preparar as suas defesas. Cobo, acompanhado pelo capitão Lope de Llano, partiu para o Japão em 1592.

Aportaram em Satsuma, no sul de Kyushu, em junho, e dali rumaram para norte até ao quartel-general avançado de Hideyoshi no Castelo de Nagoya, na província de Hizen, não a moderna cidade de Nagoya, mas a enorme fortaleza de preparação que o Taikō mandara erguer na costa noroeste de Kyushu para coordenar a sua invasão da Coreia. Era a partir deste castelo que Hideyoshi dirigia a operação militar mais ambiciosa da história japonesa, e foi aqui que recebeu o embaixador dominicano vindo de Manila.

Por todos os relatos, o encontro correu notavelmente bem. Hideyoshi, que tinha gosto pelo espetáculo estrangeiro e a apreço de soldado pela presença, recebeu Cobo com calor. Durante a audiência, o frade tirou um globo e serviu-se dele para explicar ao Taikō o puro alcance geográfico do Império espanhol, as Américas, as Filipinas, os postos em África e na Índia, os territórios acrescentados através da União Ibérica.

Hideyoshi dispensou o dominicano com uma carta de resposta cordial dirigida ao governador de Manila. A missão tinha sido bem-sucedida.

E então Juan Cobo embarcou num navio, e o navio partiu para Manila, e o navio nunca chegou.

O navio naufragou na costa da Formosa, a atual Taiwan, e os sobreviventes foram mortos por caçadores de cabeças indígenas. Cobo morreu algures naquela costa, e a carta de Hideyoshi morreu com ele. Em Manila, as autoridades não receberam notícias. Os dias tornaram-se semanas, as semanas meses. A embaixada desvanecera-se. A resposta de Hideyoshi desvanecera-se. Toda a postura diplomática da colónia assentava numa conversa que ninguém em Manila conseguia provar ter acontecido.

Dasmariñas fez a única coisa que podia fazer. Enviou outra embaixada.

E essa, entregou-a aos franciscanos.

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Capítulo Quatro

Bautista Sobe a Quioto

Frei Pedro Bautista Blázquez, também grafado Baptista, era um franciscano da Província de San Gregorio nas Filipinas, nascido na pequena vila de San Esteban, na diocese de Ávila. Tomara o hábito aos vinte e dois anos. Quando foi despachado para o Japão em 1593, já passara quinze anos em missões por toda a Nova Espanha e as Filipinas, e detinha o cargo de superior dos franciscanos em Manila.

A sua delegação era pequena: quatro franciscanos, incluindo o irmão leigo Gonzalo García, que vivera de facto no Japão anos antes ao serviço de um mercador e falava japonês o suficiente para servir de intérprete. Levavam as credenciais oficiais de uma embaixada diplomática do governador das Filipinas. Levavam também, no entendimento tácito de todos os envolvidos na expedição, um segundo mandato não oficial: uma vez no Japão, ali iam ficar. Iam contornar o Ex pastoralis officio. Iam fundar uma missáo franciscana espanhola num terreno que o Papa reservara aos jesuítas portugueses.

Os jesuítas haveriam de acusá-los mais tarde de duplicidade. A acusação não era infundada. Mas os franciscanos viam-no antes como uma desobediência justa: um decreto papal legalista, emitido sob pressão jesuíta, interpunha-se entre almas sofredoras e o Evangelho. Os mendicantes não se deixariam atar por ele.

A receção de Bautista no quartel-general de Nagoya foi, à superfície, encorajadora. Hideyoshi recebeu a embaixada com cordialidade. Estava a meio de financiar a guerra mais cara que o Japão jamais travara, e uma relação comercial com Manila, uma potencial canalização de prata que pudesse contornar o monopólio português em Nagasáqui, era atraente. O Taikō ouviu com cortesia, aceitou os presentes, e recusou autorizar fosse o que fosse parecido com uma presença missionária. O seu edito de 1587 contra o Cristianismo mantinha-se em vigor.

Hideyoshi permitiu, contudo, que os frades viajassem até Quioto. Acabou por lhes conceder o terreno de um antigo templo budista. Os franciscanos interpretaram a concessão como uma licença. Não era uma licença. Era um ato de indiferença cortês da parte de um governante com guerras maiores para travar. A diferença viria a importar.

Na capital, Bautista e os seus irmãos de hábito estabeleceram uma igreja. Fundaram um convento. Abriram um hospital de leprosos, expandindo-se com o tempo para dois hospitais que, entre os dois, trataram milhares de doentes de hanseníase, uma população que o clero budista da cidade há muito negligenciava e a que os jesuítas, por razões da sua própria estratégia cultural, não tinham dado prioridade. A ênfase franciscana no ministério aos indigentes, aos doentes e aos socialmente desprezados não era um floreio retórico. Era uma teologia em ação, e produziu instituições concretas no meio de Quioto que os japoneses, mesmo aqueles sem qualquer interesse pelo Cristianismo, podiam ver a funcionar.

E depois cometeram o seu primeiro erro catastrófico. Presumiram que estavam em segurança.

Onde os jesuítas, operando sob uma proibição adormecida mas real, tinham passado anos a vestir hábitos japoneses adaptados, a celebrar ofícios atrás de portas fechadas e a abster-se de tocar sinos em público, os franciscanos fizeram o contrário. Vestiam abertamente os seus hábitos castanhos castelhanos. Caminhavam descalços pelas ruas de Quioto, como prescrevia a sua regra, à vista de toda a gente. Cantavam o Ofício Divino no seu convento de portas escancaradas. Pregavam às multidões nas ruas. Tocavam os sinos da sua igreja, o que em Quioto, nos anos 1590, era um pouco como difundir as próprias coordenadas a uma rede hostil de defesa aérea.

Os jesuítas, observando isto com o terror paralisado de profissionais a ver amadores, avisaram Bautista repetidamente. Ele dispensou-os. Os padres portugueses eram hipócritas, dizia. Tinham sacrificado a pureza da missão à conveniência comercial. Tinham-se tornado frágeis, mundanos e covardes. Os verdadeiros frades pregavam à vista de todos. Os verdadeiros frades vestiam o seu hábito. Os verdadeiros frades aceitavam o martírio se ele viesse. Não iam ter de esperar muito.

A história completa da colisão entre as duas ordens, a catástrofe do San Felipe em 1596 e as crucificações de 1597 é contada no artigo sobre o Incidente do San Felipe.

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Capítulo Cinco

O Inspetor

Juan Pobre não estava no Japão quando a missão de Bautista foi estabelecida. Estava em Salamanca, a descobrir a sua vocação. Voluntariou-se para as missões filipinas em 1593, navegou pelo México, atravessou o Pacífico na galera de Manila e chegou a Manila em 1594. Em menos de um ano, os seus superiores haviam-no despachado para o Japão como visitator, um inspetor, com ordens para reportar sobre o estado das casas franciscanas em Quioto e o seu trabalho entre os pobres.

Passou a maior parte de 1595 e 1596 na capital japonesa, a entrevistar os frades, a visitar os hospitais de leprosos e a formar as suas opiniões. Tais opiniões eram, à sua maneira característica, inflexíveis.

Aprovava o trabalho entre os doentes. Aprovava a pregação aberta. Aprovava as procissões descalças. Aprovava, em geral, tudo o que tornava os franciscanos de Quioto diferentes dos jesuítas de Quioto. E tomava notas cuidadosas e reservadas sobre os jesuítas, porque a essa altura Juan Pobre desenvolvera uma convicção teológica fixa, de que a Companhia de Jesus não era apenas um rival mal orientado, mas um inimigo ativo do Evangelho, e começava a reunir as provas para o que viria a ser uma série de escritos polémicos a denunciar a ordem portuguesa de Manila a Madrid.

A sua acusação central era simples. Os jesuítas, insistia, evangelizavam as pessoas erradas. Tinham feito uma escolha estratégica deliberada de converter «os grandes da terra», os daimyō, os samurais, os governantes, na teoria de que, se se convertesse o príncipe, a população seguiria. Pobre achava que isto era ao mesmo tempo teologicamente deformado e factualmente errado. Os ricos estavam «mergulhados e envolvidos em vícios» para além do alcance de uma conversão fácil. Os pobres, os doentes, os marginalizados eram os objetos próprios do labor missionário. Os jesuítas tinham invertido o Evangelho. Tinham escolhido a dignidade em detrimento da indigência, a seda em detrimento do estopa, as mesas de jantar dos daimyō em detrimento das camas dos leprosos. Não eram missionários. Eram cortesãos.

Esta crítica era, claro, uma caricatura da prática jesuíta efetiva, a famosa estratégia acomodacionista de Alessandro Valignano era consideravelmente mais matizada do que a polémica de Pobre sugeria, e os jesuítas tinham, na verdade, feito um trabalho extenso junto dos cristãos japoneses comuns, sobretudo em Kyushu. Mas a fúria de Pobre não era um desacordo académico ponderado. Era a raiva de um homem que acreditava genuinamente que os seus irmãos de hábito estavam a ser sabotados por outros cristãos, e que passaria o resto da vida a tentar prová-lo na letra impressa.

Ainda estava no Japão, a inspecionar hospitais e a afiar os seus agravos, quando o San Felipe encalhou na costa de Tosa.

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Capítulo Seis

A Fuga

O que aconteceu depois de o piloto desenrolar o seu mapa, e o que aconteceu a Pedro Bautista e aos seus companheiros nas conseqüências, é matéria de outros artigos deste sítio, sobretudo o artigo sobre o Incidente do San Felipe e, sobre o contexto mais vasto das próprias crucificações, o artigo sobre o Grande Martírio de Nagasáqui, que retoma o padrão de execuções em massa um quarto de século depois. Pedro Bautista, Gonzalo García e outros quatro franciscanos figuravam entre os vinte e seis cristãos crucificados na colina de Nishizaka a 5 de fevereiro de 1597. As suas mortes puseram fim à primeira missáo franciscana ao Japão e inauguraram o padrão de martírio patrocinado pelo Estado que viria a definir as quatro décadas seguintes.

Juan Pobre não estava entre eles.

Por uma combinação de calendário e geografia, encontrava-se em Nagasáqui quando as prisões varreram Quioto e Osaca, escapou ao cerco inicial. Foi, contudo, deportado ao lado dos restantes franciscanos para Macau nas semanas que se seguiram às crucificações, levado para fora do Japão num navio português cuja tripulação terá saboreado a ironia de salvar os mendicantes espanhois que tinham passado anos a denunciá-los.

De Macau, Pobre rumou de regresso a Manila, e de Manila de volta a Espanha, e de Espanha a Roma. E é aqui que a sua vida assume a qualidade de uma dessas picarescas da época moderna em que o protagonista parece não conseguir parar de se mexer.

Tornou-se procurador da sua ordem, um agente oficial encarregado de recrutamento, angariação de fundos e lobby eclesiástico. Neste papel atravessou o Atlântico e o Pacífico várias vezes. Recrutou dezenas de franciscanos em Espanha e acompanhou-os ao México e às Filipinas. Peticionou a Coroa espanhola pelo apoio às missões mendicantes na Ásia. E, com maior consequência, fez lobby em Roma pela revogação do Ex pastoralis officio, o breve que reservara o Japão aos jesuítas.

Em dezembro de 1600, o Papa Clemente VIII emitiu um novo breve, Onerosa pastoralis officii, que abriu a missáo do Japão às ordens mendicantes. Era, em substância, um repúdio do monopólio jesuíta que Alessandro Valignano passara os anos 1570 e 1580 a engenhar. A cerca tinha caído. Franciscanos, dominicanos e agostinhos podiam agora fazer legalmente o que Juan Cobo e Pedro Bautista tinham feito por sua conta e risco. Juan Pobre, o antigo soldado de Zamora com um ressentimento contra a Companhia de Jesus, vencera o seu combate.

As consequências não seriam felizes. A chegada de mais ordens mendicantes ao Japão, no início do século XVII, complicou a relação da missáo com o xogunato Tokugawa, intensificou as rivalidades inter-ordens e contribuiu, de modos disputados mas difíceis de negar, para o ciclo acelerado de perseguição que culminaria nos editos de expulsão das décadas de 1610 e 1630. A vitória de Pobre sobre os jesuítas em Roma ajudou a produzir exatamente o resultado que os jesuítas sempre lhe tinham antecipado. Mas não viveu para o ver. Morreu em Madrid em 1615 ou 1616.

Há ainda mais um episódio na carreira de Juan Pobre que merece ser registado, porque capta o homem melhor do que qualquer um dos seus manifestos teológicos.

Em 1602, numa das suas travessias do Pacífico, Pobre seguia a bordo de uma galera de Manila no longo trânsito de Acapulco de regresso às Filipinas. O navio passou pelas Ilhas Ladrões, hoje chamadas Marianas, um arquipélago disperso no Pacífico ocidental que Espanha reclamara mas onde quase nenhum europeu se havia ainda estabelecido. Pobre olhou para as ilhas, olhou para os seus irmãos de hábito a bordo, olhou para o horizonte, e tomou uma decisão que parece ter espantado toda a gente à sua volta.

Atirou-se ao mar.

Não tinha autorização para o fazer. Não tinha provisões, não tinha colegas, não tinha plano, e não tinha língua em comum com os habitantes chamorros das ilhas. Limitou-se a descer da galera, acenar aos irmãos que partiam e caminhar para o interior.

Passou ali sete meses, a viver entre os chamorros, a apanhar a sua língua, a observar os seus costumes, a escrever o primeiro relato europeu pormenorizado das Marianas. E porque Juan Pobre era um homem que não conseguia deixar de melhorar o mundo em pequenos incrementos, ensinou aos ilhéus a cultivar milho, uma cultura do Novo Mundo que conhecera no México, introduzindo assim nas Marianas um alimento de base que ainda lá seria cultivado quatro séculos depois.

Quando a galera de Manila seguinte passou, fez-lhe sinal e subiu a bordo. Continuou a sua viagem.

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Capítulo Sete

O Balanço

Nas histórias do século cristão do Japão é tentador tratar os franciscanos como uma nota de rodapé, os indiscretos intrusos espanhois que se fizeram crucificar e complicaram o projeto infinitamente mais sofisticado dos jesuítas. É esta a versão que os jesuítas contaram. É a versão que, porque os jesuítas eram melhores escritores, sobreviveu em larga medida. Não é inteiramente errada. Mas não é suficiente.

Os franciscanos trouxeram ao Japão uma teologia que os jesuítas, com toda a sua brilhantez intelectual, não haviam realçado. Insistiram na primazia dos pobres, dos doentes e dos socialmente descartados como objetos próprios da preocupação cristã. Construíram hospitais numa capital onde os leprosos morriam em valas, e ali trataram milhares de doentes até que as instituições foram forçadas a fechar. Pregaram a multidões a que os jesuítas, trabalhando pacientemente através dos daimyō e das elites mercantis, não se tinham dirigido diretamente. Eram, à sua maneira, um corretivo a uma missáo que se afeiçoara talvez demasiado às cortes e se afastara demasiado do tipo de cristãos que Francisco de Assis teria reconhecido.

Cometeram também quase todos os erros que os jesuítas lhes tinham avisado para evitar. Confundiram a ausência de castigo imediato com aprovação positiva. Desfilaram com os seus hábitos por uma capital onde o governante proibira explicitamente a religião que representavam. Discutiram com os seus correligionários católicos com mais amargura do que com o clero budista que se lhes opunha. Confiaram em Hideyoshi num momento em que ninguém devia ter confiado em Hideyoshi. Quando a catástrofe chegou, abateu-se primeiro sobre eles, e depois, porque o governo japonês tinha agora um modelo de como matar cristãos em público, alastrou a todos os outros.

O balanço, três séculos depois, é difícil de fechar. Seis franciscanos morreram em Nishizaka, numa manhã de inverno de 1597, e as suas mortes tornaram-se ícones da Igreja Universal, os Vinte e Seis Mártires do Japão, canonizados por Pio IX em 1862, honrados com uma festa litúrgica a 5 de fevereiro e com um monumento de bronze que se debruça sobre o porto de Nagasáqui.

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Fontes & Leitura Adicional

Boxer, C.R. The Christian Century in Japan, 1549–1650. University of California Press, 1951. O estudo fundacional em inglês; indispensável sobre a rivalidade franciscano-jesuíta e o caminho até Nishizaka.

Cieslik, Hubert. «The Great Martyrdom in Edo, 1623.» Monumenta Nipponica 10, no. 1/2 (1954): 1–44. Contexto útil para a continuação do padrão de martírio iniciado com as crucificações de 1597.

Cooper, Michael. Rodrigues the Interpreter: An Early Jesuit in Japan and China. Weatherhill, 1974. Contém material valiosíssimo sobre a forma como os jesuítas percecionaram a chegada dos mendicantes espanhois nos anos 1590.

Elison, George. Deus Destroyed: The Image of Christianity in Early Modern Japan. Harvard University Press, 1973. O estudo clássico sobre o modo como o Estado japonês passou a compreender o Cristianismo como uma ameaça política.

Lach, Donald F. Asia in the Making of Europe, Volume I: The Century of Discovery. University of Chicago Press, 1965. Exaustivo sobre os decretos papais, a política da União Ibérica e as missões mendicantes emergentes para a Ásia oriental.

Moran, J.F. The Japanese and the Jesuits: Alessandro Valignano in Sixteenth-Century Japan. Routledge, 1993. Essencial para perceber o monopólio jesuíta que os franciscanos tão decididamente quebraram.

Pérez, Lorenzo. Cartas y relaciones del Japón. Três volumes. Madrid: G. López del Horno, 1916–1923. A coletânea fundamental, em língua espanhola, da correspondência franciscana provinda da missáo do Japão.

Ribadeneira, Marcelo de. Historia de las Islas del Archipiélago Filipino y Reinos de la Gran China, Tartaria, Cochinchina, Malaca, Siam, Cambodge y Japón (1601). Edição moderna, Madrid: Editorial Católica, 1947. Uma história franciscana quase contemporânea da missáo, da autoria de um participante que conheceu Juan Pobre pessoalmente.

Ruiz-de-Medina, Juan G. El martirologio del Japón, 1558–1873. Roma: Institutum Historicum Societatis Iesu, 1999. O estudo moderno definitivo sobre os mártires japoneses, incluindo os franciscanos de 1597.

Sola, Emilio. Historia de un desencuentro: España y Japón, 1580–1614. Alcalá de Henares: Fugaz Ediciones, 1999. Sobre o esforço diplomático e missionário espanhol no Japão, com atenção particular ao triângulo Manila–Nagasáqui.

Uyttenbroeck, Thomas. Early Franciscans in Japan. Missionary Bulletin Series VI, Himeji: Committee of the Apostolate, 1958. Uma curta mas autorizada história institucional da missáo franciscana e do seu pessoal.

Willeke, Bernward H. «Juan Pobre de Zamora and His Account of the Mariana Islands.» Franciscan Studies 22 (1962). O tratamento essencial em língua inglesa do extraordinário interlúdio pacífico de Pobre.